<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Cartas do Cavaleiro]]></title><description><![CDATA[Falo sobre magia e bruxaria]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jlMX!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb9a7008e-660f-495c-8ad0-2bd8e334db05_576x576.png</url><title>Cartas do Cavaleiro</title><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 19 Aug 2026 23:07:22 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://cavaleiroentreoveu.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Mateus Abdias]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[cavaleiroentreoveu@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[cavaleiroentreoveu@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[cavaleiroentreoveu@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[cavaleiroentreoveu@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Represa]]></title><description><![CDATA[Nossos mananciais insistem em transbordar.]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/represa</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/represa</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Tue, 28 Jul 2026 14:23:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qm1N!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3290fde4-4468-412e-a30c-9699c667635e_490x750.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A chegada do inverno para muitas praticantes de bruxaria no sul global convoca uma iconografia que a pr&#243;pria vis&#227;o da bruxa desmente quando ela saboreia a paisagem que mora em sua janela. Esperamos aquele tapete branco de neve que vem trazendo consigo uma esta&#231;&#227;o de morte aparente, onde a terra se fecha em esterilidade e a vida se encolhe numa hiberna&#231;&#227;o, e esta, simplesmente, n&#227;o chega aqui. </p><p>Pegamos emprestado o urso que, para fugir das neves profundas e da morte invernal, se entrega a um est&#225;gio de dorm&#234;ncia, embalado em um sono profundo dentro de sua caverna,  &#224; espera da ressurrei&#231;&#227;o da natureza que a terra nos promete com a chegada da primavera. Como se tudo acontecesse na virada do dia para o equin&#243;cio.</p><p>De onde vem essa nostalgia que n&#227;o nos pertence?</p><p>Essa heran&#231;a nos foi plantada na arte e cultura a vida inteira. Importaram um inverno que n&#227;o corresponde a realidade da maior parte do Brasil. O hemisf&#233;rio norte implantou sua roda do ano em nosso solo, e n&#243;s, como sempre, adotamos toda ela de bom grado. Um ciclo que n&#227;o corresponde ao nossa pr&#243;pria forma de escutar a natureza, pois foi moldado a partir da observa&#231;&#227;o de uma agricultura em um territ&#243;rio que n&#227;o &#233; o nosso. Erro daninho, herdado sem questionamento.</p><p>Esse desmembramento do nosso inverno em nossa cultura pag&#227; foi constantemente alimentado pelos livros que devoramos quando iniciamos nossos estudos na bruxaria, pois nascemos bebendo de tradu&#231;&#245;es que carregam, coladas ao texto como sementes fora de esta&#231;&#227;o, as correspond&#234;ncias sazonais de sua terra de origem. Criado nos cinemas um imagin&#225;rio de que um dia nosso inverno choveria neve do c&#233;u, e somente assim nasceria, de um gelo importado, um clima m&#225;gico que sustentaria uma est&#233;tica sombria e invernal.</p><p>Tudo isso nos levou a querer caber nesse padr&#227;o. Os s&#237;mbolos leg&#237;timos do Yule, se tornaram nossos s&#237;mbolos invernais. A pinha de Yule decorando nosso altar, a &#225;rvore de natal recheada de enfeites piscantes e estrelas, a neve artificial que t&#225; quase escorrendo com o calor que atravessa nossas janelas. E mesmo com o sol fazendo as plantas explodirem em flores em nossos quintais, levamos para dentro de casa uma planta para garantir a perpetua&#231;&#227;o da vida-morte-vida, enquanto tudo &#225; fora j&#225; pulsa por conta pr&#243;pria.</p><p>Tudo isso nos empurra para vestirmos uma mascara invernal que na verdade nos foi emprestada. Uma mascara gelada que esconde sob todo esse gelo artificial a pot&#234;ncia verde e &#250;mida de nossa terra pulsante, enquanto caminhamos sobre ela aguardando o dia em que finalmente um tapete branco se estenda sobre ela para assim dizermos que nosso inverno chegou.</p><p>Se tir&#225;ssemos a m&#225;scara agora, o que a terra, sob nossos p&#233;s descal&#231;os, teria a nos dizer sobre o pr&#243;prio invernar?</p><p>&#201; fundamental entendermos que esse desajuste que sentimos n&#227;o nasce de algum erro nosso. Ele nasce indefect&#237;vel, de um material hist&#243;rico, legitimado, montado perfeitamente, mas para uma estrutura sazonal que n&#227;o &#233; a nossa. E essa m&#225;scara do frio insuport&#225;vel nos leva a uma vida devocional que ignora, com uma eleg&#226;ncia cruel, o solo que de fato pisamos. &#201; a perpetua&#231;&#227;o de tradi&#231;&#245;es vindas de uma &#233;poca e regi&#227;o para uma outra sem ser questionadas se ainda servem nesse corpo que a recebe.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qm1N!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3290fde4-4468-412e-a30c-9699c667635e_490x750.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qm1N!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3290fde4-4468-412e-a30c-9699c667635e_490x750.jpeg 424w, 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Todos esses recursos servem para plantar a semente inicial da bruxaria nas terras dos devotos que se encontram adormecidos em suas cavernas. Mas essa semente isolada n&#227;o permite que a terra dessa bruxa goze de sua floresta. Indom&#225;vel.</p><p>Essa natureza indom&#225;vel das terras do sul nos serve como guia no processo de descoloniza&#231;&#227;o do nosso olhar para a natureza &#8212; seja aquela que est&#225; desabrochando l&#225; fora com as chuvas e o sol brilhante, ou a de dentro, que tem a mesma pot&#234;ncia crua. Latente.</p><p>Retirar a m&#225;scara &#233; olhar para o mesmo processo com diferentes pontos de vistas. Como despetalar uma rosa e perceber que as camadas do mesmo corpo se apresentam de maneiras diferentes. O inverno mitol&#243;gico se apresenta como um banquete farto, em que cada prato comp&#245;e a cerimonia.</p><p>Para Pers&#233;fone o inverno se apresenta como uma gesta&#231;&#227;o &#224;s avessas, ele &#233; o momento final de sua jornada de individua&#231;&#227;o no escuro Hades. &#201; ela devorando as sementes de rom&#227; escondida de todo o Olimpo. &#201; ela selando o pacto com suas pr&#243;prias entranhas, &#233; ela reivindicando seu poder como rainha e consorte desejada de Hades.</p><p>J&#225; para sua m&#227;e, a enlutada Dem&#233;ter, o mesmo inverno &#233; f&#250;ria pura e intensa. &#201; o &#225;pice do luto por sua filha, &#233; a nega&#231;&#227;o da aceita&#231;&#227;o e o grito de quem n&#227;o vai desistir at&#233; ter aquilo que deseja. &#201; a terra murchando lentamente porque a m&#227;o a pro&#237;be de florescer, mesmo com o sol brilhando para ela. &#201; o protesto do corpo materno que teve sua filha arrancada de seus bra&#231;os e que por isso protesta, de sua forma, com uma vingan&#231;a at&#233; devolverem aquilo que &#233; dela. </p><p>Sua f&#250;ria lhe empurrou a sair de um local passivo. Repres&#225;lia.</p><p>Nesse mito reconhecemos um terr&#237;vel incomodo, pois toda alma que j&#225; perdeu, mesmo que por um tempo, carrega dentro de si a mesma capacidade de fazer a terra inteira murchar como testemunha de sua pr&#243;pria dor. &#201; incomodo pois reconhecemos em n&#243;s nosso pr&#243;prio poder de destrui&#231;&#227;o quando feridos.</p><p>Fazemos ent&#227;o o Olimpo entrar em um jejum for&#231;ado, ou secamos nossos mananciais?</p><p>De fato, s&#227;o dois bra&#231;os de &#225;gua que nascem da mesma represa. O primeiro &#233; a f&#250;ria que se volta para fora: exigir do mundo, sem meias palavras, que ele sinta o peso da aus&#234;ncia, que ele tamb&#233;m passe fome enquanto n&#243;s definhamos por dentro , contaminando todo o entorno at&#233; que algu&#233;m, enfim, devolva o que nos tiraram. O segundo &#233; a f&#250;ria que se volta para dentro: secar os pr&#243;prios mananciais, murchar em sil&#234;ncio, poupar quem nos roubou, &#224; custa da pr&#243;pria terra interna e, por isso, se consome sozinho, sem testemunha, sem colheita perdida que force algu&#233;m a olhar.</p><p>Pegamos toda pot&#234;ncia latente nossa e a transformamos no ultimato, pelo instinto que se ergue em n&#243;s quando represado. Acumulado atr&#225;s da barreira que levantamos a um tempo para nos proteger. Para proteger aquilo que ainda temos. Escondendo aquilo que ainda n&#227;o roubaram de n&#243;s. Contidos.</p><p>At&#233; que a represa rompa como nossos c&#233;us invernais e arraste tudo aquilo em forma de uma chuva tempestuosa e violenta, engolindo tudo, campo ap&#243;s campo. O instinto se represado, ele n&#227;o desce em presta&#231;&#245;es, ele rompe. Desaba.</p><p>O mito invernal tem suas camadas e desdobramentos que desaguam de diferentes formas. Se a f&#250;ria de Dem&#233;ter nos ensina o pre&#231;o da represa rompida que arrasta tudo, &#233; hora de perguntar o que acontece com a terra quando a &#225;gua deita sobre si e simplesmente a rega.</p><p>Porque &#233; aqui que o inverno brasileiro se recusa a repetir qualquer roteiro que herdamos de fora. Nosso inverno &#233; farto.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg" width="317" height="195.3693045563549" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:257,&quot;width&quot;:417,&quot;resizeWidth&quot;:317,&quot;bytes&quot;:30416,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" title="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wiK5!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ffd84bba2-9420-4d1a-8a9d-235e1619d7b7_417x257.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>O inverno aqui &#233; verde, &#233; &#250;mido. Vivo. Nascido como uma insol&#234;ncia de quem nunca aprendeu a fingir morte para caber em uma expectativa alheia. Desviante. Nosso inverno n&#227;o &#233; aquele que seca mananciais, muito pelo contr&#225;rio. A chuva que umedece nosso solo transborda nossas reservas, ela lambuza a terra com fartura. O mito do sul &#233; indecente. Nossas flores desabrochando e nossas matas engordando justamente quando, segundo os livros, deveria estar dormindo.</p><p>Tudo isso revela que nossa chuva n&#227;o &#233; t&#237;mida como uma qualquer. Aqui em baixo, sob a pele dos desavisados, o torrencial que desce, retorna fervendo os mananciais subterr&#226;neos do leito da terra, empurrando, subindo e encharcando a raiz antes mesmo que a &#225;rvore saiba que tem sede. A terra recebe cada gota como quem recebe um amante que j&#225; conhece de cor o pr&#243;prio corpo pulsante.</p><p>N&#227;o h&#225; pudor nesse inverno.</p><p>Aqui em baixo a terra n&#227;o regula sua pr&#243;pria fartura, n&#227;o a dosa. Ela se derrama sobre si mesma feito quem j&#225; n&#227;o distingue mais onde termina o prazer e onde come&#231;a a sobreviv&#234;ncia. Feito quem goza justamente porque sobrevive. Tudo nela &#233; indistingu&#237;vel de desejar.</p><p>Essa &#233; a diferen&#231;a essencial entre o inverno que herdamos e o inverno que pisamos: o Norte guarda sua lux&#250;ria para a primavera, represa o desejo atr&#225;s de meses de gelo casto, e s&#243; depois, com pudor calculado, permite o florescimento. O Sul n&#227;o represa nada.</p><p><em>Temos o nosso molho.</em></p><p>E se o inverno daqui &#233; mar&#233;, e n&#227;o geleira, ent&#227;o atravess&#225;-lo n&#227;o pede recolhimento, pede rito. Movimento.</p><p>Um convite a molhar os p&#233;s. Umedecer o cora&#231;&#227;o.</p><p><strong>A Jornada do Desaguar come&#231;a aqui. <br></strong>As vagas para a Jornada abrem em breve.</p><blockquote><p><span>Com afeto,</span></p><p>&#127807; &#205;caros Argyr&#243;s.</p><p>A reprodu&#231;&#227;o deste texto &#233; proibida pela lei de direito autoral N&#186;9610 de 19 de Fevereiro de 1998 que pro&#237;be a reprodu&#231;&#227;o para fins comerciais, em qualquer meio de comunica&#231;&#227;o, inclusive na internet, sem pr&#233;via consulta e aprova&#231;&#227;o do autor.</p><p>Brasil,<br>Julho, 2026.</p></blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Órfãos de Deméter]]></title><description><![CDATA[O luto que n&#227;o sabemos mais ritualizar]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/orfaos-de-demeter</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/orfaos-de-demeter</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Jul 2026 13:16:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ia16!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5ab92b27-1b6d-477e-acdd-acb571f561cc_681x681.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>O ser humano ao longo de toda a sua hist&#243;ria nunca soube contar o tempo sem tecer uma narrativa junto. Para nossos antepassados, o sol que morre e renasce era H&#233;lio em sua carruagem, a lua minguante era H&#233;cate se recolhendo aos seus tr&#234;s caminhos, o trov&#227;o era a ira de um pai celeste, as esta&#231;&#245;es eram a dan&#231;a c&#237;clica de deusas que tinham os poderes sobre a poderosa Gaia. Eles sabiam que a raz&#227;o sozinha nunca alcan&#231;a o mist&#233;rio, que todo mecanismo tem uma alma escondida dentro de si, e que essa alma s&#243; pode ser tocada pela linguagem do s&#237;mbolo. </span></p><p><span>O mito n&#227;o era a explica&#231;&#227;o primitiva de um mundo que ainda n&#227;o t&#237;nhamos ci&#234;ncia para compreender e sim um sistema din&#226;mico que organiza a experi&#234;ncia bruta do ser no mundo. O mito era, &#233; e para sempre ser&#225; o &#250;nico idioma capaz de traduzir aquilo que a experi&#234;ncia humana tem de mais real e, ao mesmo tempo, de mais inexplic&#225;vel: o nascimento, o desejo, a perda, a morte, o &#234;xtase, o amor que devora toda e qualquer manifesta&#231;&#227;o que viva sobre o solo terrestre.</span></p><p><span>Os mitos eram encenados vivos, comidos em banquetes, sacrificados no alto de um penhasco, dan&#231;ados atrav&#233;s dos corpos dos sacerdotes dos deuses, sangrados aos p&#233;s do altar de sacrifico aos deuses. O mito vivia no corpo do povo porque era, literalmente, o que sustentava esse corpo de p&#233; diante do abismo. Eles mostravam modelos para quem estava aqui presente, que em seus corpos, suas almas tinham a resposta de como poder&#237;amos seguir mais e, de certa forma, melhores.</span></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?"><span>Subscreva agora</span></a></p><p><span>O mito nunca se preocupou em responder por que sofremos, por que amamos, por que morremos, ele apenas </span><strong>acompanhava com sentido </strong>toda essa narrativa humana.</p><p>Essas hist&#243;rias que passavam de pai para filho organizava o caos em narrativa, e uma narrativa, por mais tr&#225;gica que seja, &#233; sempre mais habit&#225;vel que o caos puro. &#201; por isso que toda cultura humana, sem exce&#231;&#227;o, criou seus pante&#245;es, seus rituais, suas cosmogonias.</p><p>E &#233; exatamente essa habitabilidade que perdemos.</p><p>O grande ponto n&#227;o &#233; escrever um texto sensacionalista que ignora o que a ci&#234;ncia at&#233; hoje j&#225; fez. N&#227;o &#233; dizer que o choro e f&#250;ria de Dem&#233;ter no processo de luto por sua filha Pers&#233;fone seja mais significante no processo da troca das esta&#231;&#245;es que a dan&#231;a que a terra faz ao redor do Sol. Um n&#227;o anula o outro!</p><p><span>N&#227;o se trata de negar o valor do conhecimento t&#233;cnico, o problema nunca foi a ci&#234;ncia. O problema &#233; a cren&#231;a de que a explica&#231;&#227;o poderia, sozinha, substituir por completo a necessidade humana de sentido. Sabemos hoje como o cora&#231;&#227;o bate e ainda assim n&#227;o sabemos mais o que fazer quando ele se parte com a dor da saudade daquilo que n&#227;o volta mais. Sabemos como nosso corpo produz as l&#225;grimas e esquecemos que, assim como Dem&#233;ter chorou a terra inteira em luto at&#233; que sua filha lhe fosse devolvida, e que esse choro tinha o poder de secar todas as planta&#231;&#245;es do mundo, podemos sofrer igual ela. </span></p><p><span>A ci&#234;ncia responde ao </span><em>como</em><span>. O mito sempre respondeu, e continuar&#225; respondendo, ao </span><em>para qu&#234;</em><span>. S&#227;o perguntas de naturezas distintas, e a crise que vivemos hoje nasce exatamente do momento em que decidimos, coletivamente, que uma resposta bastaria para as duas.</span></p><p><strong><span>Somos todos &#243;rf&#227;os de Dem&#233;ter</span></strong></p><p><span>Pensa na &#250;ltima vez que algu&#233;m pr&#243;ximo a ti morreu. </span></p><p><span>Quantos dias de sil&#234;ncio social te foram permitidos antes que o mundo esperasse teu retorno &#224; produtividade? Quem validou tua tristeza? Quem aplacou tua f&#250;ria diante do incontrol&#225;vel?</span></p><p><span>Nas sociedades antigas, o luto tinha forma, tinha vestes espec&#237;ficas, tinha tempo determinado, tinha comunidade que carregava o peso contigo, tinha rito de passagem que sinalizava, com clareza, quando a travessia havia terminado. Hoje, perdemos at&#233; o significado do sofrimento. N&#227;o &#233; &#224; toa que tantos carregam lutos n&#227;o processados por anos, d&#233;cadas, vidas inteiras, n&#227;o porque n&#227;o soubessem sentir, mas porque ningu&#233;m mais lhes ensinou </span><em>como</em><span> sentir dentro de uma estrutura que fa&#231;a sentido. Dem&#233;ter tinha permiss&#227;o m&#237;tica para parar o mundo inteiro em nome de sua dor. N&#243;s nem sequer temos permiss&#227;o para parar um dia e ter pessoas que nos acalentem em nossos processos.</span></p><p>Mas a pergunta que fica, depois que a dor espec&#237;fica de cada perda j&#225; se dissolveu no tempo, &#233; outra e mais funda: </p><p><em><strong>Para onde vai o luto que nunca teve rito? </strong></em></p><p>Ele se transforma nas marcas que ficam em nossa alma e a carregamos at&#233; a oportunidade de desaguar, ele se transforma em uma sensa&#231;&#227;o difusa, quase imposs&#237;vel de nomear, de n&#227;o pertencer a lugar nenhum. &#201; essa a heran&#231;a silenciosa de quem cresce sem comunidade que segure o pr&#243;prio pesar: a certeza inc&#244;moda de estar, de algum modo, desamparado no mundo. &#211;rf&#227;o n&#227;o apenas de quem se perdeu, mas de todo o tecido que deveria ter existido ao redor da perda e n&#227;o existiu.</p><p>Porque &#233; isso que Dem&#233;ter tinha e n&#243;s n&#227;o temos mais: ela n&#227;o sofria sozinha. O mundo inteiro sofria com ela. As planta&#231;&#245;es murchavam, os deuses se inquietavam, o Olimpo inteiro era convocado a testemunhar aquela dor at&#233; que uma solu&#231;&#227;o fosse negociada. O luto de Dem&#233;ter tinha peso  porque havia um cosmos inteiro disposto a reconhec&#234;-lo. Hoje, a dor de cada um de n&#243;s cabe, na melhor das hip&#243;teses, em uma mensagem de condol&#234;ncias e tr&#234;s dias de licen&#231;a. O resto, &#233; para resolvermos sozinhos, em sil&#234;ncio, sem que ningu&#233;m pare o pr&#243;prio mundo por n&#243;s.</p><p>Quando n&#227;o existe mais estrutura m&#237;tica capaz de nomear a dor e distribu&#237;-la entre muitos ombros, a dor volta inteira para dentro de um corpo s&#243;, e esse corpo aprende, cedo, a se sentir sozinho mesmo cercado de gente. &#201; essa a orfandade que carregamos hoje, quase sem exce&#231;&#227;o: a aus&#234;ncia de um cosmos que se importe o suficiente para parar por n&#243;s enquanto atravessamos o que d&#243;i. Afinal, nem n&#243;s mesmos conseguimos parar e validar esses nossos processos.</p><p>N&#227;o nos permitimos vagar pela terra enquanto sofremos, sem rumo, apenas procurando acalentar (n&#227;o tampar) a parte que nos falta.</p><p>Dem&#233;ter vagou. </p><p>Ela largou o Olimpo, largou seu posto entre os deuses, e caminhou pelo mundo disfar&#231;ada de velha, sem pressa de chegar a lugar nenhum, porque a busca em si j&#225; era parte do luto. Ela n&#227;o tentou consertar a dor rapidamente para poder voltar logo &#224;s suas fun&#231;&#245;es, ela deixou a dor de sua perca redesenhar seu pr&#243;prio corpo, sua pr&#243;pria rotina, sua pr&#243;pria rela&#231;&#227;o com o mundo.</p><p>Talvez seja esse o primeiro gesto de retorno poss&#237;vel: n&#227;o a cura imediata, mas a permiss&#227;o. Permiss&#227;o para vagar. Permiss&#227;o para n&#227;o saber. Permiss&#227;o para que a falta doa em voz alta, at&#233; que algu&#233;m, nem que seja s&#243; a gente mesmo, pare de verdade para escutar.</p><p>Aqui fica um convite para desaguarmos&#8230;</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ia16!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5ab92b27-1b6d-477e-acdd-acb571f561cc_681x681.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ia16!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5ab92b27-1b6d-477e-acdd-acb571f561cc_681x681.jpeg 424w, 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url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6Iid!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F23eb7396-7dc3-4d0f-99a2-b425ba25bd9d_540x360.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>O inverno convida a nos retirarmos.</span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6Iid!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F23eb7396-7dc3-4d0f-99a2-b425ba25bd9d_540x360.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!6Iid!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F23eb7396-7dc3-4d0f-99a2-b425ba25bd9d_540x360.jpeg 424w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" 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O crescimento pulsante dos nossos alicerces nos possibilita e convida a gestarmos (e engravidarmos) de novos potenciais, estes que ser&#227;o desabrochados no ver&#227;o seguinte.</span></p><p><span>Mas ciclar o inverno, em uma sociedade capitalista &#233; sistematicamente dif&#237;cil, o movimento social n&#227;o nos d&#225; tempo para sentirmos nossas copas contraindo enquanto nos aprofundamos mais nos campos </span><em><span>invis&#237;veis </span></em><span>do submundo. A resist&#234;ncia &#233; social, capital e espiritual, por isso a bruxa precisa ser ardilosa e sorrateira o suficiente para burlar as normas do sistema que anualmente n&#227;o as permitem sentirem seu lutos e  suas lutas.</span></p><p><span>Falar sobre &#211;rimos &#233; falar que o crescimento, expans&#227;o e produtividade n&#227;o se encontram apenas sob a luz aquecedora dos raios de sol do ver&#227;o. O mundo n&#227;o para enquanto invernamos, a natureza continua a acontecer, obviamente de uma outra forma. As rela&#231;&#245;es ecol&#243;gicas acontecem constantemente de um modo invis&#237;vel aos olhos dos desatentos: &#233; tempo da </span><strong><span>escurid&#227;o nutritiva</span></strong><span>.</span></p><p><span>Os dom&#237;nios do Hades se abrem para quem deseja beber dessa fonte imensa e infind&#225;vel da nutri&#231;&#227;o ct&#244;nica. A terra f&#233;rtil, &#250;mida e fofa provoca nossas ra&#237;zes a descerem mais, a lhe penetrarem cada vez mais fundo, tecendo um caminho que outrora nunca foi antes desbravado para enfim poder sugar o nutriente que lhe fora prometido se tivesse coragem de descer.</span></p><p><span>Coragem. Essa &#233; a palavra que mais me toca nesse ciclo invernal que se aproxima. Afinal, somente uma semente embebida dessa fonte de pot&#234;ncia e poder consegue fazer com que sua alma des&#231;a ao submundo interno, encontre seu Hades, beba de sua fonte, </span><em><span>ou coma da rom&#227;, </span></em><span>para conseguir renascer na primavera. Para morrer, a semente precisa ter coragem.</span></p><p><span>Essa coragem de que falamos n&#227;o &#233; a bravura impetuosa e exaustiva das batalhas solares, mas a resist&#234;ncia silenciosa da semente que aceita a press&#227;o do solo sobre si, dos percal&#231;os que ela encontra enquanto expande suas ra&#237;zes na terra. No inverno, somos convidados a habitar o reino dos Ct&#244;nicos, o morada da antiga H&#233;cate, a casa e reino de Hades, o local em que Pers&#233;fone foi iniciada alquimicamente at&#233; a sua coroa&#231;&#227;o. &#211;rimos representa a energia do pr&#243;prio solo e das profundezas, onde a cura e o crescimento acontecem longe dos olhos do mundo.</span></p><p><span>Ciclar o inverno &#233; um rito de catarse, &#233; despir-se das personas e m&#225;scaras superficiais para que Borborophorba, a Devoradora de Sujeira, possa consumir o que n&#227;o serve mais, transformando nossos detritos e traumas no &#8220;ouro&#8221; da sabedoria. Transformando as merdas que nos aconteceram e nos atravessam at&#233; hoje em mais adubo para nossa plantinha. </span><em><span>O inverno &#233; o prel&#250;dio do nosso florescer espiritual.</span></em></p><p><span>Mas para que a Borborophorba nos convide a </span><strong><span>catarse</span></strong><span>, precisamos lembrar de que a descida da rainha Pers&#233;fone n&#227;o foi ago suave, causou dor e f&#250;ria na sua m&#227;e, o que ocasiona na dan&#231;a das esta&#231;&#245;es: a terra n&#227;o produz mais como outrora, a f&#250;ria de Dem&#233;ter por n&#227;o saber do paradeiro de sua filha lan&#231;a na terra a esterilidade, marcando ent&#227;o o per&#237;odo invernal, pois as plantas n&#227;o produzem mais, e sem o alimento, toda a vida na terra &#233; amea&#231;ada.</span></p><p><span>Aqueles que ficam na superf&#237;cie no momento de inverno veem que n&#227;o ciclar lhe deixam exaustos, faltam o suprimento necess&#225;rio que s&#243; encontramos em Hades no per&#237;odo do </span><em><span>frio</span></em><span>. Quem resiste &#224; descida e permanece na superf&#237;cie, apegados &#224; luz e &#224; produtividade constante, acaba por devorar a si mesmo, tentando preencher um vazio que s&#243; a nutri&#231;&#227;o ct&#244;nica pode saciar. O vazio que se instala na superf&#237;cie, chama todos os que sentem a mergulhar nos trabalhos internos, aqueles que s&#243; acontecem nas profundezas.</span></p><p><span>Ao descermos ao reino dos mortos, percebemos que o Hades n&#227;o &#233; um deserto de escassez, mas a morada de Pluto, o deus das riquezas. Mitologicamente, as sementes de rom&#227; que Pers&#233;fone consome no Hades sela seu destino n&#227;o como v&#237;tima, mas como rainha soberana que possui aud&#225;cia suficiente para decidir, de cabe&#231;a erguida, o seu futuro. Sem arrependimentos, sem a influ&#234;ncia externa de seu pai ou m&#227;e, ela &#233; a senhora de si. &#201; ao se alimentar no submundo, um ato proibido para quem n&#227;o morreu ainda, que a Deusa faz o pacto de fato com a sua pr&#243;pria individua&#231;&#227;o, com seu sorriso malicioso, ela se conecta com seu pr&#243;prio e individual eu.</span></p><p><span>Para a bruxa, comer da rom&#227; no inverno significa aceitar que a escurid&#227;o &#233; agora sua parceira de vida, &#233; entender que a nutri&#231;&#227;o vem do &#8220;&#250;tero &#250;mido&#8221; da terra, onde os processos alqu&#237;micos de nigredo (a putrefa&#231;&#227;o necess&#225;ria) transformam a mat&#233;ria bruta da alma em algo novo. &#201; olhar para essa terra que outrora ningu&#233;m deu valor, e cavucar, extrair dela todo o seu potencial.</span></p><p><span>Astrologicamente, o inverno &#233; o dom&#237;nio de Saturno (Cronos), o Senhor do Tempo e das Limita&#231;&#245;es. Ele nos imp&#245;e a disciplina do sil&#234;ncio e o peso da responsabilidade sobre nossa pr&#243;pria evolu&#231;&#227;o, afinal, Pers&#233;fone s&#243; tem a promessa de retornar transformada na primavera porque ela, desde o outono, se comprometeu com seu pr&#243;prio crescimento individual. Desde a semente dispersa, ela, curiosa, seguiu o seu esp&#237;rito e impulso de se transformar.</span></p><p><span>Saturno exige que encaremos a realidade nua, sem as ilus&#245;es primaveris ou o brilho ofuscante do ver&#227;o. &#201; sob sua foice que cortamos os excessos, permitindo que as ra&#237;zes se concentrem apenas no essencial: a sobreviv&#234;ncia e o fogo interno. Esse per&#237;odo saturnino &#233; fundamental para que a planta adquira mais ra&#237;zes, a firmeza da personalidade que s&#243; se forma ap&#243;s o encontro repetido com o inconsciente, de se deliciar com as sementes doce como o mel.</span></p><p><span>Ao aceitar as sementes de rom&#227;, a Deusa Kor&#233;, a donzela </span><em><span>ing&#234;nua</span></em><span> , assume sua identidade como Pers&#233;fone, a Rainha Soberana. Psicologicamente, isso representa o sacrif&#237;cio da inoc&#234;ncia ilus&#243;ria que nos mant&#233;m protegidos em prados ensolarados, mas estagnados. &#201; o nigredo, a putrefa&#231;&#227;o daquilo que n&#227;o mais nos serve, &#233; onde a alma se cozinha em seu pr&#243;prio suco para que o velho eu morra e o novo possa, enfim, germinar.</span></p><p><span>No seu submundo, a bruxa encontra um tesouro dif&#237;cil de encontrar, sua soberania. Como as fontes apontam, o Pai das Riquezas guarda os recursos que foram descartados pela consci&#234;ncia solar, traumas, desejos reprimidos e pot&#234;ncias latentes que, quando integrados alquimicamente, conferem &#224; bruxa uma autoridade inabal&#225;vel sobre seu pr&#243;prio destino.</span></p><p><span>Comer da rom&#227; &#233; fazer amor consigo mesma, como quem se lambuza p&#243;s orgasmo e lambe os dedos com suor e o pr&#243;prio gozo. &#201; se amar e se desejar por completo, enxergando em si seu pr&#243;prio manancial: &#250;mido e f&#233;rtil. Pulsante, aguardando a primavera. &#201; olhar para sua pr&#243;pria terra e, mesmo que superficialmente ela se encontre inf&#233;til ou seca, penetrar suas ra&#237;zes cada vez mais fundo at&#233; encontrar os mananciais subterr&#226;neos, sua pr&#243;pria fonte. &#201; a promessa da roda das esta&#231;&#245;es de Pers&#233;fone.</span></p><p><span>O inverno &#233; essa prepara&#231;&#227;o e provoca&#231;&#227;o sexual. &#201; Hades recebendo por completo a pot&#234;ncia de Pers&#233;fone.</span></p><p><em><span>Um devorando o outro.</span></em></p><p><span>Da mesma forma que planta que um dia foi o fruto que caiu na terra e sua semente germinou e que agora expande mais e mais suas ra&#237;zes sugando do solo a &#225;gua, nutrientes e oxig&#234;nio para sua pot&#234;ncia, a terra absorve desse fruto todas as partes que j&#225; n&#227;o lhe &#233; mais necess&#225;ria para que ele cres&#231;a. A terra, &#250;mida e fertil, devora o envolt&#243;rio duro que outrora era protetor da semente, ela o acolhe, o digere e o transforma em mais adubo.</span></p><p><span>&#201; o pacto de sangue e sumo selado pela fruta proibida, que garantem que nenhuma alma, por mais livre que seja, caminhe pelo mundo sem carregar consigo a mem&#243;ria da sua pr&#243;pria sombra e do seu pr&#243;prio prazer.</span></p><p><span>&#201; nesse cen&#225;rio de lux&#250;ria ct&#244;nica que o inverno brasileiro se revela em sua pot&#234;ncia oculta, aqui a terra da superf&#237;cie &#233; &#250;mida, uma m&#225;scara que pode enganar as desavisadas para os mananciais subterr&#226;neos que borbulham sob nossos p&#233;s. Essa pot&#234;ncia oculta do inverno brasileiro, verde e &#250;mido, &#233; o cen&#225;rio onde a bruxa do Sul exerce sua soberania ao descolonizar seu olhar e seu corpo.</span></p><p><span>Enquanto no Hemisf&#233;rio Norte o inverno &#233; branco e est&#233;ril como vemos em filmes ou nos livros cl&#225;ssicos de bruxaria, aqui ele &#233; verde e profundo, uma mar&#233; de purifica&#231;&#227;o onde as &#225;guas da chuva lavam o que &#233; sup&#233;rfluo, permitindo que a bruxa se lambuze na &#8220;umidade natural&#8221; de sua pr&#243;pria magia, preparando o solo f&#237;sico, ps&#237;quico e feiticeiro para o novo plantio.</span></p><p><span>Ciclar o inverno nas terras do Sul &#233; entender que o frio que sopra da Ant&#225;rtica &#233; a &#226;ncora necess&#225;ria para que nossas ra&#237;zes penetrem a crosta terrestre at&#233; encontrar o fogo sagrado (hieros pyr) que arde no centro da Terra e no &#226;mago do nosso cora&#231;&#227;o, a busca pelo tes&#227;o em n&#243;s mesmos. &#201; ser guiados pela constela&#231;&#227;o do Cruzeiro do Sul. Alicer&#231;ados na for&#231;a da terra, elemento que tem rela&#231;&#227;o com os mist&#233;rios que trabalham na inicia&#231;&#227;o, materializa&#231;&#227;o, maldi&#231;&#245;es, mas tamb&#233;m todos os prazeres. &#201; encontramos nossa terra no nosso corpo, nos dentes, no esqueleto humano. Naquilo que nos estabiliza e nos d&#225; a estrutura para a manuten&#231;&#227;o no plano f&#237;sico.</span></p><p><span>Nosso inverno &#233; aquoso, a mar&#233; de purifica&#231;&#227;o se derrama sobre nossas vidas, abrindo portas para a catarse movimentada pelo nigredo. Na magia, a &#225;gua &#233; o elemento dos sentimentos, das mem&#243;rias e da purifica&#231;&#227;o. As mar&#233;s promovidas pelas dan&#231;as das &#225;guas nos levam a um exame da nossa consci&#234;ncia, de quem somos e do onde queremos chegar. As tempestades de inverno s&#227;o jorros de vida que penetram o solo com a for&#231;a de um amante bruto. </span><strong><span>A terra responde na mesma moeda.</span></strong></p><p><span>Nosso inverno &#233; esguichante. Visceral. Profano.</span></p><p><span>Nossa &#225;gua interna &#233; potencializada pelo fogo do Hades, o condutor da nutri&#231;&#227;o, permitindo ent&#227;o que fervemos em &#234;xtase, onde nossa pr&#243;pria ess&#234;ncia renasce. Mesmo na introspec&#231;&#227;o fria e &#250;mida, afinal, nenhuma alma persefon&#233;ica resiste aos fluxos de Hades.</span></p><p><span>Profano. Ser Persefoneico &#233; mergulhar no h&#250;mus (a terra, o enterrar), aceitando que ser humano exige colocar partes de n&#243;s debaixo do solo para potencializarmos. Vl&#225;stano (outono) e &#211;rimos (inverno) s&#227;o o tempo em que n&#227;o apenas somos enterrados, mas plantados como sementes no </span><em><span>&#250;tero </span></em><span>escuro de Hades. Este inverno abra&#231;a a sacralidade da mat&#233;ria, vendo no corpo nu o altar principal e no &#8220;prazer profano&#8221; uma oferenda sagrada quando experimentado com inten&#231;&#227;o.</span></p><p><span>Nossa &#8220;morte do profano&#8221; ocorre n&#227;o na esterilidade, mas na putrefa&#231;&#227;o &#250;mida das folhas em decomposi&#231;&#227;o, um prel&#250;dio necess&#225;rio para que a vida sagrada possa, enfim, brotar. Silenciosa, ou rugindo em &#234;xtase igual a Dioniso, sentindo na pele as emo&#231;&#245;es de um esp&#237;rito que mesmo tendo sua mat&#233;ria dilacerada e morta, p&#244;de, enfim, experimentar a ressurrei&#231;&#227;o.</span></p><p><span>&#201; o mist&#233;rio do deus que &#233; despeda&#231;ado para que seu sangue vire vinho, fertilizando o ch&#227;o que pisamos. O inverno exige esse desmembramento volunt&#225;rio das nossas certezas. &#201; preciso deixar que as larvas e os fungos do subsolo fa&#231;am o seu trabalho naquilo que j&#225; n&#227;o nos serve mais, pois n&#227;o h&#225; espa&#231;o para o luto higi&#234;nico ou para o choro contido, a nossa dor e raiva escorre como o sumo da uva pisoteada, densa e com cheiro de promessa. Morrer no h&#250;mus &#233; a garantia de que nenhuma parte de n&#243;s &#233; desperdi&#231;ada, pois at&#233; o que em n&#243;s apodrece serve de banquete para a nossa pr&#243;pria divindade, e os ct&#244;nicos amam isso!</span></p><p><span>Bruxas, &#233; chegado o tempo do &#234;xtase dionis&#237;aco, um frenesi silencioso que dissolve as cristaliza&#231;&#245;es do ego e nos devolve &#224; nossa natureza selvagem. Ao descermos &#224; caverna de H&#233;cate e bebermos da fonte da Mem&#243;ria, descobrimos que a nossa fertilidade n&#227;o depende do sol externo, mas do calor do nosso pr&#243;prio fogo interno que aquece o submundo.</span></p><p><span>Na promessa de Pers&#233;fone, o inverno &#233; o beijo da serpente que regenera nossa vontade, garantindo que, quando a primavera finalmente irromper, n&#227;o seremos apenas flores coloridas, mas o pr&#243;prio fruto maduro e consciente de quem ousou amar a pr&#243;pria escurid&#227;o.</span></p><p><span>Na promessa de Hades que vive como uma for&#231;a, fertil e acolhedora. No seu reino subterr&#226;neo, longe dos olhos olimp&#237;anos, podemos ent&#227;o deitarmos em macios len&#231;&#243;is e fazermos a hierogamia com n&#243;s mesmos, quantas vezes for necess&#225;rio at&#233; encontrarmos nosso pr&#243;prio eu. Onde tamb&#233;m somos convidadas a deitar nossas coroas e m&#225;scaras na terra e repousar o corpo exausto na maciez do escuro. Sabendo que Ele n&#227;o nos quer pequenas ou contidas, ele nos recebe em nossa total realeza ctoniana, validando nossa f&#250;ria, nossa ambi&#231;&#227;o e nossa fome.</span></p><p><span>Na promessa de Dioniso que mesmo morto, pode renascer quantas vezes for necess&#225;rio, entendendo que a vida &#233; um eterno ciclo de morte e renascimento. Orob&#243;rica. E que toda vez que for necess&#225;rio, iremos rugir para reivindicar nosso direito de ser selvagem como a natureza, n&#227;o importando se vamos ciclar frios ou quentes e &#250;midos, mas que iremos gozar de nosso pr&#243;prio deleite, e embriagados de n&#243;s mesmos, de nossa completude, de nossa vida, de nossa soberania.</span></p><p><span>Ressurgir desse inverno n&#227;o &#233; voltar intacta, limpa ou intocada. &#201; brotar rasgando a terra, com as unhas sujas de argila e a boca risonha tingida pelo roxo da rom&#227; e do vinho. &#201; trazer na pele a cicatriz org&#226;nica de quem foi dilacerada, digerida pelo pr&#243;prio manancial e que, justamente por isso, aprendeu a canalizar a seiva bruta da vida. Deixamos o envolt&#243;rio duro para tr&#225;s, enterrado profundamente na putrefa&#231;&#227;o sagrada, para que possamos finalmente esticar os bra&#231;os em dire&#231;&#227;o ao c&#233;u, n&#227;o mais como criaturas temerosas, mas como a pr&#243;pria primavera que ruge, indom&#225;vel, de dentro para fora.<br><br></span>Com afeto,</p><p>&#127807; &#205;caros Argyr&#243;s.</p><p>A reprodu&#231;&#227;o deste texto &#233; proibida pela lei de direito autoral N&#186;9610 de 19 de Fevereiro de 1998 que pro&#237;be a reprodu&#231;&#227;o para fins comerciais, em qualquer meio de comunica&#231;&#227;o, inclusive na internet, sem pr&#233;via consulta e aprova&#231;&#227;o do autor.</p><p>Brasil,</p><p>19/06/2026</p><p><strong>Fontes:</strong></p><ul><li><p>O caminho de Pers&#233;fone - Obsidyana </p></li><li><p>Entrando na caverna de H&#233;cate - Cyndi Brannen</p></li><li><p>Arqu&#233;tipos da Sombra - Joanna LaPrade</p></li><li><p>Curso b&#225;sico de Astrologia I - Marion D. March e Joan McEvers</p></li><li><p>Grim&#243;rio de Pers&#233;fone - Anota&#231;&#245;es pessoais</p></li><li><p>Ciclando no Brasil - Anota&#231;&#245;es pessoais</p></li></ul><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Cartas do Cavaleiro! 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Ao lado do tem&#237;vel Plut&#227;o, governamos o mundo dos mortos. Mas hoje, n&#227;o &#233; sobre mim que falarei. &#201; sobre a f&#233;rtil e poderosa presen&#231;a do Zeus Ct&#244;nico.</p><p>Era quase meio-dia, e o sol brilhava intensamente naquela manh&#227; de ver&#227;o nos campos floridos da It&#225;lia. O aroma suave de a&#231;afr&#227;o preenchia o ar. Eu, com minha cesta de flores e o v&#233;u cr&#243;ceo rec&#233;m-tecido, colhia as flores para compor arranjos e, tamb&#233;m, para tingir o tecido de um tom dourado profundo, quase m&#237;stico.</p><p>Apenas eu, meu v&#233;u e o punhado de flores rec&#233;m-colhidas estavam ali, quando, de repente, a terra tremeu. Um grande estremecimento percorreu o solo, e foi como se a terra tivesse se rasgado novamente, como na primeira vez. Nem precisei olhar para saber o que estava acontecendo. Eu o reconheceria em qualquer lugar, mesmo em meio &#224; maior multid&#227;o. Aquele cheiro. Era inconfund&#237;vel.</p><p>E ent&#227;o, de dentro da terra, Ele emergiu.</p><p>O Hospedeiro de muitos, o Senhor dos Sombras, o todo-poderoso Hades.</p><p>Aos meus p&#233;s, com uma aud&#225;cia que s&#243; ele sabia ter, agarrou-me pelos tornozelos, e um sorriso, tanto de surpresa quanto de desafio, escapou de meus doces l&#225;bios.</p><p>&#8212; Atrevido &#8212; murmurei, com um sorriso faceiro no rosto, e minha voz saiu quase em tom de deboche.</p><p>Mas ele sabia, sempre soubera. Eu era dele e ele era meu. Desde aquele dia de doce lua de mel, quando selamos nossa alquimia her&#233;tica e profana com a rom&#227; ct&#244;nica. O v&#237;nculo foi selado no submundo, antes de eu retornar aos bra&#231;os de minha m&#227;e querida naquela primavera.</p><p>&#8212; A saudade apertou, minha rainha &#8212; segredou Hades ao meu ouvido, sua voz suave, mas cheia de um desejo profundo, enquanto me abra&#231;ava pela cintura.</p><p>E ent&#227;o, naquele mesmo campo ensolarado, selamos novamente nosso amor em um beijo apaixonado. Ao nosso redor, a natureza parecia vibrar, como se estivesse em sintonia com o nosso la&#231;o. Eu podia sentir os pistilos das flores me tocando, suaves e gentis, assim como o do meu amado. O ar, pesado de amor e de poder, pulsava ao nosso redor.</p><p>Levei-o ent&#227;o &#224; casa do Poderoso Zeus, onde ele, como sempre, se encontrava ausente, ocupado com seus afazeres. E ali, naquele local <em>sagrado</em>, acessado por poucos, a morte e a vida se encontravam, se tocavam, se renovavam. O pr&#243;prio espa&#231;o se curvava diante daquilo que se sucedia. Aquele ato que profanou a santidade do lugar, onde a semente da lux&#250;ria foi plantada em meu &#250;tero.</p><p>Era como uma dan&#231;a entre a luz e a sombra, o vis&#237;vel e o invis&#237;vel, o palp&#225;vel e o imaterial. Cada gesto, cada toque, cada gemido e orgamos&nbsp; parecia parar o pr&#243;prio tempo, criando um espa&#231;o onde o que &#233; e o que n&#227;o &#233; se confundiam. E ali, naquele momento, uma nova exist&#234;ncia come&#231;ou a germinar. Melinoe.</p><p>Aquela crian&#231;a, ainda invis&#237;vel, era a uni&#227;o de tudo o que o mundo tem de contradit&#243;rio e divino: a eterna tens&#227;o entre a vida que floresce e a morte que nunca se esquece de reivindicar, entre o desejo carnal e a pot&#234;ncia transcendental. A gesta&#231;&#227;o daquela crian&#231;a, com suas ra&#237;zes fincadas no submundo e no reino dos c&#233;us, &#233; a for&#231;a que desafia os pr&#243;prios limites do que &#233; poss&#237;vel, do que &#233; sagrado e do que &#233; profano.</p><p>&#8211; Melinoe, eu chamo, vem, crian&#231;a da noite &#8211; Dizia H&#233;cate Kourotrophos me auxiliando na sagrada hora, junto ao rio c&#243;cito.</p><p>Est&#225;vamos todos ali, &#224;s margens do rio C&#243;cito, onde as &#225;guas negras refletiam a escurid&#227;o eterna do submundo. O murm&#250;rio do rio parecia conversar com os ventos, formando um ambiente prop&#237;cio para aquela hora, como se toda a terra &#250;mida, f&#233;rtil e bolorenta estivesse em espera. As sombras se entrela&#231;avam &#224; luz das tochas, dan&#231;ando em sincronia.</p><p>H&#233;cate, a Deusa das encruzilhadas, guardi&#227; dos mist&#233;rios e da morte, tomava minha m&#227;o com delicadeza e firmeza ao mesmo tempo, conduzindo-me pelas &#225;guas g&#233;lidas e trai&#231;oeiras daquele rio imortal. Sua presen&#231;a, serena e poderosa, era a luz que guiava a escurid&#227;o.</p><p>Melinoe, a filha da noite, nascida do v&#233;u entre a vida e a morte, era a crian&#231;a que surgia, o reflexo perfeito da uni&#227;o de opostos. O ritual estava completo.</p><p>E, naquele limiar, a ess&#234;ncia de sua exist&#234;ncia se formava. Presenteada fostes deusa fantasmag&#243;rica com o v&#233;u cr&#243;ceo, para que possas exercer plenamente teus dom&#237;nios sob a terra, c&#233;u e mar, pois nada escapa de tua hostil ir&#225; se n&#227;o antes aplacar teus &#226;nimos indom&#225;veis. Brimo!</p><p>Tua presen&#231;a agora &#233; sentida em todos os cantos da Terra, em cada tremor que percorre os corpos, em cada pulo de espanto, em cada desmaio de medo. Pois tu &#233;s a que semeia o pavor nos cora&#231;&#245;es dos que ousam ignorar-te, &#233;s a sombra invis&#237;vel e multiforme que se arrasta pelos corredores do mundo.</p><p>Em cada esquina, nas noites com ou sem lua, nos segredos que o vento carrega, tua ess&#234;ncia se espalha, inquietando os que ainda acreditam estar livres da escurid&#227;o. Tu &#233;s o sussurro nas brumas, o peso nas sombras, o pressentimento que aperta o peito de todos que se recusam a reconhecer o senhorio de tua m&#227;e.</p><p>Aqueles que tentam desviar o olhar sentem tua ira na alma, como uma m&#227;o fria dilacerando o cora&#231;&#227;o, pois, mesmo nas horas mais claras, tua sombra os toca. A quem ignora o dom&#237;nio do submundo, tu &#233;s o eco da fatalidade, a lembran&#231;a constante de que a morte e a escurid&#227;o nunca se afastam, apenas aguardam o momento certo para reclamar o que &#233; seu.</p><p>Vem Deusa Ct&#244;nica, e se, em algum momento fui aprovado por ti, aceita esse escrito como uma suave oferenda a ti e revela a mim tua benevolente face, que eu possa achegar me a ti sem rejei&#231;&#227;o. Futuramente poderei te enviar mais uma carta.</p><p></p><p>Com afeto,</p><p>&#127807; &#205;caros Apol&#244;nio.</p><p>A reprodu&#231;&#227;o deste documento &#233; proibida pela lei de direito autoral N&#186;9610 de 19 de Fevereiro de 1998 que pro&#237;be a reprodu&#231;&#227;o para fins comerciais, em qualquer meio de comunica&#231;&#227;o, inclusive na internet, sem pr&#233;via consulta e aprova&#231;&#227;o do autor.</p><p>Brasil,</p><p>16/10/2025</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!162a!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F8fc5dec4-f091-4e57-bea9-05af257e7813_730x1095.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" 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url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jlMX!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb9a7008e-660f-495c-8ad0-2bd8e334db05_576x576.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A boca mi&#250;da ainda insiste em dizer que o Senhor da Terra distante &#233; est&#233;ril.</p><p>Eu sou Pers&#233;fone, Deusa da Primavera, a outorgadora da vida. Ao lado do tem&#237;vel Plut&#227;o, governamos o mundo dos mortos. Mas hoje, n&#227;o &#233; sobre mim que falarei. &#201; sobre a f&#233;rtil e poderosa presen&#231;a do Zeus Ct&#244;nico.</p><p>Era quase meio-dia, e o sol brilhava intensamente naquela manh&#227; de ver&#227;o nos campos floridos da It&#225;lia. O aroma suave de a&#231;afr&#227;o preenchia o ar. Eu, com minha cesta de flores e o v&#233;u cr&#243;ceo rec&#233;m-tecido, colhia as flores para compor arranjos e, tamb&#233;m, para tingir o tecido de um tom dourado profundo, quase m&#237;stico.</p><p>Apenas eu, meu v&#233;u e o punhado de flores rec&#233;m-colhidas estavam ali, quando, de repente, a terra tremeu. Um grande estremecimento percorreu o solo, e foi como se a terra tivesse se rasgado novamente, como na primeira vez. Nem precisei olhar para saber o que estava acontecendo. Eu o reconheceria em qualquer lugar, mesmo em meio &#224; maior multid&#227;o. Aquele cheiro. Era inconfund&#237;vel.</p><p>E ent&#227;o, de dentro da terra, Ele emergiu.</p><p>O Hospedeiro de muitos, o Senhor dos Sombras, o todo-poderoso Hades.</p><p>Aos meus p&#233;s, com uma aud&#225;cia que s&#243; ele sabia ter, agarrou-me pelos tornozelos, e um sorriso, tanto de surpresa quanto de desafio, escapou de meus doces l&#225;bios.</p><p>&#8212; Atrevido &#8212; murmurei, com um sorriso faceiro no rosto, e minha voz saiu quase em tom de deboche.</p><p>Mas ele sabia, sempre soubera. Eu era dele e ele era meu. Desde aquele dia de doce lua de mel, quando selamos nossa alquimia her&#233;tica e profana com a rom&#227; ct&#244;nica. O v&#237;nculo foi selado no submundo, antes de eu retornar aos bra&#231;os de minha m&#227;e querida naquela primavera.</p><p>&#8212; A saudade apertou, minha rainha &#8212; segredou Hades ao meu ouvido, sua voz suave, mas cheia de um desejo profundo, enquanto me abra&#231;ava pela cintura.</p><p>E ent&#227;o, naquele mesmo campo ensolarado, selamos novamente nosso amor em um beijo apaixonado. Ao nosso redor, a natureza parecia vibrar, como se estivesse em sintonia com o nosso la&#231;o. Eu podia sentir os pistilos das flores me tocando, suaves e gentis, assim como o do meu amado. O ar, pesado de amor e de poder, pulsava ao nosso redor.</p><p>Levei-o ent&#227;o &#224; casa do Poderoso Zeus, onde ele, como sempre, se encontrava ausente, ocupado com seus afazeres. E ali, naquele local <em>sagrado</em>, acessado por poucos, a morte e a vida se encontravam, se tocavam, se renovavam. O pr&#243;prio espa&#231;o se curvava diante daquilo que se sucedia. Aquele ato que profanou a santidade do lugar, onde a semente da lux&#250;ria foi plantada em meu &#250;tero.</p><p>Era como uma dan&#231;a entre a luz e a sombra, o vis&#237;vel e o invis&#237;vel, o palp&#225;vel e o imaterial. Cada gesto, cada toque, cada gemido e orgamos&nbsp; parecia parar o pr&#243;prio tempo, criando um espa&#231;o onde o que &#233; e o que n&#227;o &#233; se confundiam. E ali, naquele momento, uma nova exist&#234;ncia come&#231;ou a germinar. Melinoe.</p><p>Aquela crian&#231;a, ainda invis&#237;vel, era a uni&#227;o de tudo o que o mundo tem de contradit&#243;rio e divino: a eterna tens&#227;o entre a vida que floresce e a morte que nunca se esquece de reivindicar, entre o desejo carnal e a pot&#234;ncia transcendental. A gesta&#231;&#227;o daquela crian&#231;a, com suas ra&#237;zes fincadas no submundo e no reino dos c&#233;us, &#233; a for&#231;a que desafia os pr&#243;prios limites do que &#233; poss&#237;vel, do que &#233; sagrado e do que &#233; profano.</p><p>&#8211; Melinoe, eu chamo, vem, crian&#231;a da noite &#8211; Dizia H&#233;cate Kourotrophos me auxiliando na sagrada hora, junto ao rio c&#243;cito.</p><p>Est&#225;vamos todos ali, &#224;s margens do rio C&#243;cito, onde as &#225;guas negras refletiam a escurid&#227;o eterna do submundo. O murm&#250;rio do rio parecia conversar com os ventos, formando um ambiente prop&#237;cio para aquela hora, como se toda a terra &#250;mida, f&#233;rtil e bolorenta estivesse em espera. As sombras se entrela&#231;avam &#224; luz das tochas, dan&#231;ando em sincronia.</p><p>H&#233;cate, a Deusa das encruzilhadas, guardi&#227; dos mist&#233;rios e da morte, tomava minha m&#227;o com delicadeza e firmeza ao mesmo tempo, conduzindo-me pelas &#225;guas g&#233;lidas e trai&#231;oeiras daquele rio imortal. Sua presen&#231;a, serena e poderosa, era a luz que guiava a escurid&#227;o.</p><p>Melinoe, a filha da noite, nascida do v&#233;u entre a vida e a morte, era a crian&#231;a que surgia, o reflexo perfeito da uni&#227;o de opostos. O ritual estava completo.</p><p>E, naquele limiar, a ess&#234;ncia de sua exist&#234;ncia se formava. Presenteada fostes deusa fantasmag&#243;rica com o v&#233;u cr&#243;ceo, para que possas exercer plenamente teus dom&#237;nios sob a terra, c&#233;u e mar, pois nada escapa de tua hostil ir&#225; se n&#227;o antes aplacar teus &#226;nimos indom&#225;veis. Brimo!</p><p>Tua presen&#231;a agora &#233; sentida em todos os cantos da Terra, em cada tremor que percorre os corpos, em cada pulo de espanto, em cada desmaio de medo. Pois tu &#233;s a que semeia o pavor nos cora&#231;&#245;es dos que ousam ignorar-te, &#233;s a sombra invis&#237;vel e multiforme que se arrasta pelos corredores do mundo.</p><p>Em cada esquina, nas noites com ou sem lua, nos segredos que o vento carrega, tua ess&#234;ncia se espalha, inquietando os que ainda acreditam estar livres da escurid&#227;o. Tu &#233;s o sussurro nas brumas, o peso nas sombras, o pressentimento que aperta o peito de todos que se recusam a reconhecer o senhorio de tua m&#227;e.</p><p>Aqueles que tentam desviar o olhar sentem tua ira na alma, como uma m&#227;o fria dilacerando o cora&#231;&#227;o, pois, mesmo nas horas mais claras, tua sombra os toca. A quem ignora o dom&#237;nio do submundo, tu &#233;s o eco da fatalidade, a lembran&#231;a constante de que a morte e a escurid&#227;o nunca se afastam, apenas aguardam o momento certo para reclamar o que &#233; seu.</p><p>Vem Deusa Ct&#244;nica, e se, em algum momento fui aprovado por ti, aceita esse escrito como uma suave oferenda a ti e revela a mim tua benevolente face, que eu possa achegar me a ti sem rejei&#231;&#227;o. Futuramente poderei te enviar mais uma carta.</p><p></p><p>Com afeto,</p><p>&#127807; &#205;caros Apol&#244;nio.</p><p>A reprodu&#231;&#227;o deste documento &#233; proibida pela lei de direito autoral N&#186;9610 de 19 de Fevereiro de 1998 que pro&#237;be a reprodu&#231;&#227;o para fins comerciais, em qualquer meio de comunica&#231;&#227;o, inclusive na internet, sem pr&#233;via consulta e aprova&#231;&#227;o do autor.</p><p>Brasil,</p><p>16/10/2025</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta 05: Choro de gay Deus não escuta]]></title><description><![CDATA[Mas afinal, para qual Deus estamos orando?]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-05-choro-de-gay-deus-nao-escuta</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-05-choro-de-gay-deus-nao-escuta</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Thu, 09 Oct 2025 16:25:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/43017246-b985-467c-a675-5d6f5f39235e_720x918.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="pullquote"><p>Pelas l&#225;grimas que ca&#237;ram e n&#227;o foram ouvidas pelo Deus distante, <br>Eu transformo meu lamento em um canto<em>, um brado,</em> de poder. <br>A dor que libero &#233; a <em>verdade brutal</em> que n&#227;o pode mais ser contida. <br>N&#227;o h&#225; intermedi&#225;rios entre mim e o Sagrado. <br>Eu sou minha pr&#243;pria autoridade, sou &#250;nico, Eu sou Deus!</p><p>Pois ser bruxa n&#227;o &#233; sobre a necessidade do sacrif&#237;cio alheio, mas sobre o poder de se curar. </p><p>Por isso, Eu desfa&#231;o o n&#243; da tristeza que me aprisiona, <br>E <em>retomo meu poder</em> de toda e qualquer cren&#231;a que me negue. <br>Meu corpo sente, meu corpo deseja, o prazer, porque ele &#233; um ato do esp&#237;rito. </p><p>Eu invoco o <em>Deus de Chifres</em>, o incontrol&#225;vel Senhor do prazer, <br>A <em>Grande M&#227;e</em>, cuja lei &#233; o amor sobre todos os seres,<br>E tamb&#233;m todos Deus, Deusas e Deuses que fazem esse cosmos girar em uma dan&#231;a org&#225;stica,<br>Que todos os dias nos ensinam sobre o nosso de individua&#231;&#227;o e soberania.</p></div><p><strong>Queridos, </strong></p><p>V&#243;s escrevo essa carta na tentativa de transpor, de maneira crua, o que senti durante minha fase inicial na bruxaria, <em>antes do encontro e do gozo com o diabo </em>e da minha queda e renascimento com Pers&#233;fone e do beijo quente e purificador de Apolo, para que eu pudesse me libertar desse peso que ainda reside em minhas costas e, para caso algu&#233;m esteja passando por coisa semelhante a isso, saiba que voc&#234; n&#227;o caminha sozinho na noite.</p><p>Foram cerca de dezoito anos de minha vida que passei enfurnado dentro de uma religi&#227;o que n&#227;o pertencia, era como se uma parte de mim n&#227;o se adequasse ali, e constantemente, a sensa&#231;&#227;o de sufocamento vinha, e junto dela, o p&#226;nico:</p><p>&#8220;O inferno est&#225; reservado para gente como eu&#8221;</p><p>Eles diziam constantemente e abertamente em cima de seus palanques chiques, enquanto estavam embrulhados por diversas camadas de roupas extremamente quentes.  Como um mantra que esconde um feiti&#231;o maldito lan&#231;ado de cima de mim e que me empurrava cada vez mais para o abismo.</p><p>Rasgar minha pele e escrever isso &#233; um trabalho extremamente &#225;rduo, afinal, estar de frente com nossas feridas sempre nos causa um enjoo e dores, sejam essas f&#237;sicas ou sentimentais.</p><p>Mas em pleno poder de uma lua cheia em &#225;ries, v&#243;s escrevo. Como um feiti&#231;o alqu&#237;mico de palavras, transmuto toda essa dor e a transformo em magia. Para restaurar meu corpo-templo.</p><p>O medo do inferno n&#227;o era uma met&#225;fora para mim, ele era real. Ele me desconectou de mim mesmo, me obrigou a usar mascaras sociais e performar algo que eu nunca fui, e nunca tive a inten&#231;&#227;o de ser. Por isso, assumi um personagem por um longo per&#237;odo da minha vida, e esse personagem est&#225; enterrado em algum lugar da minha psique, e de tempos em tempos, algu&#233;m faz quest&#227;o de ressuscit&#225;-lo, e ele volta para me assombrar, como um fantasma que me persegue.</p><p>N&#227;o me lembro com clareza da idade exata em que esse p&#226;nico come&#231;ou a enraizar-se, mas sei que por volta dos meus oito anos j&#225; havia a consci&#234;ncia amarga de que eu n&#227;o me encaixava no molde que me impunham. Enquanto outros meninos pareciam seguir com naturalidade os padr&#245;es esperados, eu era o desvio, o errante, a disruptura na superf&#237;cie perfeita. A cada ano que passava, essa sensa&#231;&#227;o de inadequa&#231;&#227;o se intensificava, at&#233; se tornar um peso insuport&#225;vel.</p><p>Recordo-me, como se fosse ontem, de voltar da igreja ao lado de minha m&#227;e e me trancar em meu quarto. L&#225; dentro, eu chorava convulsivamente, tomado por um medo atroz da puni&#231;&#227;o divina, acreditando que a qualquer instante seria fulminado por ser quem eu era. Ali, sozinho, de joelhos no ch&#227;o frio, implorava ao deus que, segundo me diziam, havia me criado daquele jeito. Suplicava-lhe que me mudasse, que apagasse em mim aquilo que me fazia diferente, porque n&#227;o suportava a ideia de enfrentar o destino cruel que diziam estar reservado para mim.</p><p>Disso eu lembro cada palavra dita entre as l&#225;grimas quentes e gordas que escorriam no meu rosto. </p><p>&#8220;Se fosse para ter uma vida distante dele, que ent&#227;o ele me levasse antes de eu crescer&#8221;</p><p>Mas como eu estar distante dele, se ele nunca esteve pr&#243;ximo?</p><p>Essa pergunta ecoou em mim por anos, um sussurro persistente na escurid&#227;o da minha alma, at&#233; que o sil&#234;ncio dele se tornou insuport&#225;vel. Foi ent&#227;o que, em meio ao desespero e &#224; exaust&#227;o de carregar um fardo que n&#227;o era meu, comecei a buscar outras vozes, outros caminhos. </p><p>A bruxaria n&#227;o me encontrou; eu a encontrei, ou melhor, ela se revelou como um farol que guia as embarca&#231;&#245;es na tempestade noturna em alto mar, mas eu mal sabia que estava navegando. N&#227;o foi um despertar s&#250;bito, mas um algo lento, que se revelou camada por camada, de uma verdade que sempre esteve ali, pulsando sob a superf&#237;cie da minha pele, sob a m&#225;scara que eu usava. Um baile extremamente provocativo, quase er&#243;tico. Cada livro lido, cada erva tocada, cada ritual sussurrado extremamente baixo era um passo para fora da pris&#227;o que eu mesmo, inconscientemente, havia ajudado a construir, tijolo por tijolo, com o cimento do medo e da culpa. </p><p>Para voc&#234; ter uma no&#231;&#227;o mais clara de como tudo come&#231;ou, preciso contar sobre meu primeiro ritual. Realizado em meu quarto sem toda pompa e parafern&#225;lia que dizem ser importante &#8212; inclusive, te escreverei futuramente sobre isso. </p><p>Usando uma vela branca, daquelas que <em>toda</em> casa tem guardada, aquelas que armazenamos no fundo de uma gaveta da cozinha para usar quando falta luz. Ela j&#225; estava t&#227;o antiga que sua parafina j&#225; estava amarelada, <em>talvez </em>deve ter sido ela que tenha atra&#237;do Apolo. N&#227;o s&#243; ela, eu tinha em m&#227;o um incenso improvisado com ervas que tinha na despensa amarradas por um barbante, um punhado de sal grosso e um copo com &#225;gua. </p><p>E ali, naquele altar improvisado, a magia se revelou.<br>N&#227;o foi com eventos sobrenaturais, nem com vozes arrebatadoras, mas no sil&#234;ncio sutil da vela acesa, no balan&#231;ar da chama que parecia me observar, no calor que se espalhava pelo quarto e pelo meu peito, nas m&#227;os tr&#234;mulas enquanto manipulava os elementos, pois sabia que ao acessar o v&#233;u n&#227;o teria mais volta. No medo da transgress&#227;o que eu estava fazendo.</p><p>Mas foi ali a primeira vez que senti que havia algo maior me respondendo sem intermedi&#225;rios. Pela primeira vez, n&#227;o precisei de um p&#250;lpito, de um pastor, de um serm&#227;o. A resposta vinha da pr&#243;pria chama e se traduzia dentro de mim.</p><p>Ela n&#227;o veio em um templo de pedra, nem em um c&#237;rculo perfeito riscado no ch&#227;o, mas no lugar mais banal e &#237;ntimo: meu quarto. Um espa&#231;o pequeno, abarrotado de livros da igreja e anota&#231;&#245;es teol&#243;gicas, mas que naquela noite se tornou um altar secreto.</p><p>O mais curioso &#8212; e amb&#237;guo&#8212; &#233; que nesse mesmo per&#237;odo minha vida religiosa estava em plena ascens&#227;o. Eu havia me tornado um dos professores principais da equipe de ensino teol&#243;gico da igreja e estava me caminhando para me tornar um l&#237;der de um grupo inteiro. Minhas noites eram preenchidas com leituras, serm&#245;es e a responsabilidade de ensinar a &#8220;verdade&#8221; a outros. Como as aulas eram online, ali, naquele mesmo quarto, ao desligar a chamada de v&#237;deo, eu me aprofundava mais nos conhecimentos da bruxaria. Her&#233;tico!</p><p>Por fora, eu era exemplo, a refer&#234;ncia, a promessa. Mas por dentro, j&#225; come&#231;ava a rachar, a bruxa adormecida estava voltando a germinar. Aquela chama, amarelada, me despertou do sono.</p><p>Era como se Apolo, tivesse vindo de Delfos, e tinha atravessado as paredes e colocado diante de mim um espelho:<br><em>&#8220;&#947;&#957;&#8182;&#952;&#953; &#963;&#949;&#945;&#965;&#964;&#972;&#957;. Ensinas sobre a luz, mas nunca a viu de verdade. Aqui est&#225; ela. Bruta, silenciosa, livre. A luz, ela arde em ti.&#8221;</em></p><blockquote><p>&#8220;Conhece-te a ti mesmo&#8221;</p></blockquote><p>E assim, entre a cruz e a chama daquela velha vela, come&#231;ou a cis&#227;o inevit&#225;vel.</p><p>Os portadores da luz &#8212; <em>fa&#233;sforos/luc&#237;feros </em>&#8212; se entrela&#231;aram em mim. E hoje, n&#227;o h&#225; como dizer onde, em mim, come&#231;a Apolo ou Pers&#233;fone. </p><p>E nesse processo, a figura do Diabo, a t&#227;o demonizada e temida, come&#231;ou a se apresentar n&#227;o como o punidor terr&#237;vel, mas como o libertador, o questionador, a for&#231;a primal que rompe com as amarras do dogma. O encontro com ele n&#227;o foi minha queda, mas minha ascens&#227;o, um gozo na redescoberta da minha pr&#243;pria vontade, da minha pr&#243;pria sombra, da minha pr&#243;pria divindade. O Diabo me ensinou que meu gozo era libertador.</p><p>E ali ent&#227;o, eu libei o meu gozo, a mim mesmo.</p><p>Foi a permiss&#227;o para ser inteiro, para abra&#231;ar o que me foi ensinado a rejeitar. </p><p>Mas toda liberta&#231;&#227;o vem acompanhada de queda. E eu ca&#237;.<br>Ca&#237; fundo, fui lan&#231;ado at&#233; as ra&#237;zes do meu pr&#243;prio inferno.<br>Foi nessa escurid&#227;o sem promessa que a encontrei: Pers&#233;fone, a Senhora da jornada da transforma&#231;&#227;o, aquela que reina no submundo e &#233; a manifesta&#231;&#227;o plena da Primavera. Ela n&#227;o veio com viol&#234;ncia da sua foice, mas com a do&#231;ura dura de quem sabe o peso da queda. Ela me embalou em sua doce cesta, como se estivesse guardando sua preciosa flor, tomou-me pela m&#227;o e mostrou-me que aquele rapto n&#227;o era o meu fim, mas a promessa de um renascimento. Que essa morte que eu experimentava n&#227;o era aniquila&#231;&#227;o, mas transforma&#231;&#227;o alqu&#237;mica necess&#225;ria para minha coroa&#231;&#227;o. Era sobre a busca pela minha soberania.</p><p>Em seu abra&#231;o sombrio, me vi como uma semente que aguarda o renascimento, aprendi a ver beleza no sil&#234;ncio f&#233;rtil da terra, a reconhecer que at&#233; no subterr&#226;neo mais escuro existem sementes germinando. Com Pers&#233;fone, descobri que o renascimento s&#243; acontece quando aceitamos morrer para aquilo que n&#227;o somos.</p><p>Apolo, em sua ambiguidade e gl&#243;ria implac&#225;vel, trouxe uma luz que me dissecou e ainda me disseca. Uma luz que atravessou os v&#233;us e lan&#231;ou sobre mim a vis&#227;o nua daquilo que sou. Ele ilumina as cavernas da minha psique, onde eu guardo medos infantis, vergonhas cultivadas, os sil&#234;ncios. E um a um, todos esses fantasmas se ergueram diante da claridade, sem disfarces, sem m&#225;scaras.</p><p>Foi, e ainda &#233;, um choque. Um impacto seco, direto, que n&#227;o pediu licen&#231;a. A luz de Apolo n&#227;o curva o caminho, n&#227;o oferece atalhos, n&#227;o se ajusta ao conforto humano. Ela &#233; flecha lan&#231;ada que corta o ar em linha reta, certeira, inevit&#225;vel. Assim ele me atingiu: sem rodeios, sem massagem, sem met&#225;foras. Apenas a verdade crua, penetrando como uma flecha disparada em uma presa.</p><p>E ent&#227;o ele exp&#244;s minhas sombras mais &#237;ntimas, ele me mostrou tamb&#233;m que eu n&#227;o precisava mais fugir delas. </p><p>A flecha que perfura tamb&#233;m abre passagem. </p><p>Apolo n&#227;o veio como consolo de Pers&#233;fone, mas como desnudamento. Ele n&#227;o disse: &#8220;est&#225; tudo bem&#8221;, mas sim: &#8220;&#233; assim que voc&#234; &#233;, e n&#227;o h&#225; como voltar atr&#225;s.&#8221; E nesse reconhecimento brutal, eu encontrei uma liberdade que nenhum serm&#227;o jamais me ofereceu. </p><p>Apolo, n&#227;o me ofereceu um caminho f&#225;cil, mas ele me devolveu a vis&#227;o para trilhar o meu pr&#243;prio, pois o brilho de Apolo n&#227;o &#233; somente luz, ele traz a Ordem. Seu beijo foi o amanhecer ap&#243;s uma longa noite de escurid&#227;o, a promessa de um novo dia onde a autenticidade n&#227;o seria mais um fardo, mas a minha maior virtude. &#201; ele quem queima as amarras do julgamento externo, quem purifica as m&#225;goas que ainda residem em meu cora&#231;&#227;o e quem selou a minha jornada com a certeza de que eu era digno de luz, de amor e de liberdade. Ele e Pers&#233;fone s&#227;o a valida&#231;&#227;o de que o caminho percorrido, por mais tortuoso que tenha sido, me levou exatamente onde eu precisava estar: em paz comigo mesmo, sob o sol da minha pr&#243;pria verdade, e que posso renascer v&#225;rias vezes como semente, descer no solo f&#233;rtil e adentrar o submundo para retornar renascido. </p><p>N&#227;o digo que n&#227;o h&#225; mais medo, mas sim que porto a certeza de que a verdadeira f&#233; reside na autenticidade, na coragem de ser quem se &#233;, sem pedir desculpas ao mundo ou a qualquer deus que tente nos diminuir. E &#233; essa liberdade que agora me permite respirar, escrever e, finalmente, viver.</p><p>Hoje sei, com a firmeza de quem j&#225; atravessou a noite, que a bruxaria me entregou chaves essenciais para minha exist&#234;ncia.</p><p><strong>Liberta&#231;&#227;o do Passado</strong>: A trilha da bruxaria n&#227;o &#233; um caminho de fuga, mas de descida. Ela exige que mergulhemos fundo em n&#243;s mesmos, rompendo as camadas de m&#225;scaras e falsidades at&#233; que o &#8220;eu escondido&#8221; se revele. &#201; duro, porque significa encarar verdades cru&#233;is, abrir cicatrizes antigas e mal curadas, conversar com os fantasmas que nos assombram. Mas &#233; nesse mesmo confronto que nasce a cura, o amor-pr&#243;prio e, acima de tudo, o perd&#227;o, n&#227;o aos outros, mas a n&#243;s mesmos. Libertar-se do passado &#233; quebrar os grilh&#245;es invis&#237;veis que sugam nossa for&#231;a, e sem esse primeiro passo, nenhum poder pode fluir de verdade.</p><p><strong>Trabalho da Sombra/Shadow Work:</strong> &#8211; Mas n&#227;o basta libertar-se. &#201; preciso tamb&#233;m descer ao submundo da pr&#243;pria psique e reconhecer o que escondemos de n&#243;s mesmos. O trabalho da sombra &#233; um processo cont&#237;nuo de observar nossas feridas, reconhecer os tra&#231;os que preferir&#237;amos negar, iluminar os recantos onde escondemos medos, v&#237;cios e vergonhas. N&#227;o para destru&#237;-los, mas para integr&#225;-los. Pois aquilo que n&#227;o aceitamos em n&#243;s sempre encontrar&#225; um jeito de nos governar. Somente ao abra&#231;ar a sombra, o praticante encontra equil&#237;brio e abre espa&#231;o para que sua magia se torne inteira.</p><p>E assim, aquilo que come&#231;ou em l&#225;grimas e medo se transformou em um caminho de poder. Hoje escrevo n&#227;o para apagar a dor, mas para transmut&#225;-la. N&#227;o como forma de me vingar do passado, mas para iluminar o presente, seja ele o meu ou o seu. Se algu&#233;m, ao ler estas linhas, sentir no peito o mesmo peso que um dia carreguei, saiba: n&#227;o h&#225; noite eterna. H&#225; sempre um submundo que nos acolhe, um deus que nos toca, e um sol que, cedo ou tarde, nos desperta do sono invernal.</p><p>Que estas palavras sejam mais do que relato, que sejam ponte. Ponte entre o medo e a coragem, entre a escurid&#227;o e a centelha de luz que todos carregamos, mesmo que esteja esquecida dentro de uma velha gaveta. Que voc&#234; querido, encontre em si a for&#231;a de abra&#231;ar suas sombras, de acender suas chamas e de caminhar com a certeza de que n&#227;o estamos sozinhos. E que, ao final, possamos lembrar sempre: a magia n&#227;o est&#225; apenas nos rituais ou nos deuses que evocamos, mas na coragem de sermos inteiros, na honestidade de sentirmos e na liberdade de viver em nossa pr&#243;pria luz. Outrora lembrarei de te escrever sobre mais coisas. </p><p>Com afeto,<br>&#127807; &#205;caros Apol&#244;nio.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" width="76" height="76" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:450,&quot;width&quot;:450,&quot;resizeWidth&quot;:76,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!&quot;,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" title="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>A reprodu&#231;&#227;o deste documento &#233; proibida pela lei de direito autoral N&#186;9610 de 19 de Fevereiro de 1998 que pro&#237;be a reprodu&#231;&#227;o para fins comerciais, em qualquer meio de comunica&#231;&#227;o, inclusive na internet, sem pr&#233;via consulta e aprova&#231;&#227;o do autor.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg" width="60" height="70.42553191489361" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:662,&quot;width&quot;:564,&quot;resizeWidth&quot;:60,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" title="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>Brasil,<br>09/10/2025</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A busca pelo Aesthetic ainda vai me matar ]]></title><description><![CDATA[A Tirania do "Aesthetic": Por que a busca pela perfei&#231;&#227;o visual nos adoece?]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/a-busca-pelo-aesthetic-ainda-vai</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/a-busca-pelo-aesthetic-ainda-vai</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Sun, 21 Sep 2025 22:23:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/73c61f3f-c6c7-4003-8960-ec51d4e85008_1200x675.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Viver em uma sociedade que valoriza mais a apar&#234;ncia do que a ess&#234;ncia &#233; sufocante. O belo, muitas vezes, &#233; colocado como prioridade absoluta, acima da funcionalidade, da utilidade e at&#233; da autenticidade. E, no fim das contas, isso simplesmente n&#227;o funciona.</p><p>A era digital, com sua profus&#227;o de imagens e a constante exposi&#231;&#227;o nas redes sociais, inaugurou uma verdadeira ditadura da imagem. A supervaloriza&#231;&#227;o da est&#233;tica visual transformou a vida em uma vitrine, onde cada postagem, cada perfil, cada intera&#231;&#227;o &#233; cuidadosamente curada para apresentar uma vers&#227;o idealizada de si mesmo ou de seu trabalho. Essa cultura de exibi&#231;&#227;o incessante gera um ciclo vicioso de compara&#231;&#227;o e ansiedade da performance, onde a valida&#231;&#227;o externa se torna um motor prim&#225;rio para a autoafirma&#231;&#227;o e cria&#231;&#227;o.</p><p>Essa &#233; uma das minhas sombras mais pesadas quando penso nos conte&#250;dos digitais que crio e compartilho com o mundo. Por mais que eu seja da &#225;rea do Design, nunca quis me prender a uma identidade visual engessada, fria e distante de quem eu realmente sou &#8212; o puro suco do caos criativo. Criar um padr&#227;o est&#233;tico r&#237;gido, que exige manuten&#231;&#227;o constante, que me cobra perfei&#231;&#227;o e que, ao menor deslize, se transforma em gatilho de ansiedade seria como construir uma pris&#227;o dourada e me colocar dentro dela. Linda por fora, mas sufocante por dentro. No fim, quem fica limitado sou apenas eu mesmo.</p><blockquote><p><em>O conceito "aesthetic" se refere a um conjunto de qualidades que tornam algo agrad&#225;vel aos sentidos, especialmente &#224; vis&#227;o, entretanto transcendeu seu significado original para se tornar um imperativo cultural. Nas redes sociais, em plataformas de conte&#250;do e at&#233; mesmo em intera&#231;&#245;es cotidianas, a busca por uma est&#233;tica impec&#225;vel se tornou onipresente no &#226;mbito das rela&#231;&#245;es humanas com suas cria&#231;&#245;es. Contudo, essa inocente e incessante procura pela perfei&#231;&#227;o imag&#233;tica n&#227;o &#233; isenta de custos.</em></p></blockquote><p>Ainda assim, eu seria ing&#234;nuo se dissesse que n&#227;o me sinto pressionado por esse ideal. Existem dias em que a busca pela est&#233;tica perfeita pesa sobre mim como uma &#226;ncora. Dias em que comparo meus trabalhos, minhas postagens, minha imagem, com a de outras pessoas que parecem dominar esse universo visual sem esfor&#231;o algum. &#201; nessas horas que a sombra do &#8220;n&#227;o &#233; suficiente&#8221; sussurra mais alto.</p><p>A busca por um padr&#227;o est&#233;tico inating&#237;vel, frequentemente ditado por tend&#234;ncias ef&#234;meras e algoritmos agressivos e impiedosos, pode levar a um esgotamento criativo e emocional. A autenticidade &#233; sacrificada aos p&#233;s do altar da est&#233;tica, e a liberdade de experimenta&#231;&#227;o &#233; ceifada, sem d&#243;, pelo receio de n&#227;o corresponder &#224;s expectativas visualmente impostas, seja por si mesmo ou pelos outros.</p><p>Mas talvez seja justamente a&#237; que mora a resist&#234;ncia. Entender que a est&#233;tica pode, e deve, caminhar ao lado da funcionalidade, da espontaneidade e da autenticidade. Que n&#227;o h&#225; problema em valorizar o belo, desde que ele n&#227;o se torne uma tirania interna. O desafio est&#225; em equilibrar o desejo de criar algo visualmente impactante com a liberdade de n&#227;o me tornar ref&#233;m de um padr&#227;o que nunca foi feito para me caber inteiro.</p><p>Te convido, neste ciclo primaveril que nasce, a desafiar os padr&#245;es est&#233;ticos que nos foram enfiados goela abaixo desde sempre. Proponho uma resist&#234;ncia &#8212; uma resist&#234;ncia que celebre a beleza da imperfei&#231;&#227;o e a valoriza&#231;&#227;o intr&#237;nseca do funcional. Um convite para questionar as premissas que nos empurram sem pedir licen&#231;a e para buscar um equil&#237;brio mais saud&#225;vel entre o que queremos mostrar e o que realmente somos.</p><p>Permitir-se vulner&#225;vel, experimentar, ousar ir contra o fluxo da perfei&#231;&#227;o cristalizada torna-se, em si, um ato revolucion&#225;rio. Vivemos em um cen&#225;rio onde a apar&#234;ncia impec&#225;vel &#233; a moeda de troca, mas a coragem de mostrar falhas, erros, rascunhos e processos &#233; o que cria conex&#227;o genu&#237;na com n&#243;s mesmos e com os outros. Isso significa aceitar que nem todo conte&#250;do precisa ser polido at&#233; a perfei&#231;&#227;o, que nem toda imagem precisa caber num feed de revista ou numa vitrine cuidadosamente curada.</p><p>A autenticidade, muitas vezes, n&#227;o se encontra no produto final, mas na crueza do processo, na espontaneidade das escolhas, na liberdade de mostrar o que &#233; real, mesmo que desconfort&#225;vel ou fora de padr&#227;o &#8212; afina de contas, quem criou ele?! &#201; na imperfei&#231;&#227;o que a criatividade floresce, que a originalidade se manifesta, que a verdadeira est&#233;tica da vida aparece.</p><p>Ent&#227;o, traga isso para o mundo. Mostre seus processos, seus testes, suas falhas. Experimente sem medo, publique sem filtros que n&#227;o sejam seus, e celebre cada detalhe que carrega a marca da sua humanidade. Neste ciclo de renascimento, que a primavera n&#227;o seja apenas das flores, mas tamb&#233;m da coragem de ser inteiro, imperfeito e funcional ao mesmo tempo.</p><p>Eu te lan&#231;o um feiti&#231;o, aqui e agora: seja aut&#234;ntica!</p><p>Com afeto,<br>&#127807; &#205;caros Apol&#244;nio.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta 04: Eis que tudo se fez novo]]></title><description><![CDATA[O desabrochar da primavera na vida da bruxa.]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-04-eis-que-tudo-se-fez-novo</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-04-eis-que-tudo-se-fez-novo</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Wed, 17 Sep 2025 16:39:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/00b69cb9-fcd7-496a-b6cb-564d60a5a72a_736x585.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Queridos,</p><p>A Roda do Ano gira mais uma vez, e com esse giro a primavera, ou Ostara para alguns, desabrocha. Como um bot&#227;o floral, faceiro e perfumado, que traz consigo cores, cheiros e novos come&#231;os.</p><p>A Primavera &#233; uma das esta&#231;&#245;es mais simb&#243;licas que existem na bruxaria. Ela marca o retorno da vida que foi ceifada no Outono, e que no Inverno serviu de nutriente para nossa terra. Nessa esta&#231;&#227;o, as bruxas tradicionais comemoram o retorno do amor, aqui nossa terra est&#225; f&#233;rtil e generosa, aguardando a semente, o fruto desse amor, para outrora germinar. </p><p>Quando crian&#231;a, eu me perguntava por que, ao fazermos anivers&#225;rio, costumamos dizer que &#8220;completamos mais uma primavera&#8221;. Hoje entendo que a resposta habita no cora&#231;&#227;o da bruxaria: na profunda liga&#231;&#227;o com os ciclos naturais. Afinal, &#233; justamente nesta esta&#231;&#227;o que tudo se renova, que o velho d&#225; espa&#231;o ao novo, que a vida se expande. &#201; nessa esta&#231;&#227;o que tudo se faz novo!</p><p>Olhe em volta, observe as possibilidades come&#231;ando a florescer. Assim como a natureza come&#231;ou a despertar de seu sono invernal, as bruxas tamb&#233;m s&#227;o convidadas da desabrochar, o convite da Deusa foi lan&#231;ado, &#233; hora de atender a esse chamado, minha bruxa, e permitir-se desabrochar.</p><p>O que podemos esperar para esse ciclo florido que, nesse ano, tem seu in&#237;cio no dia 22 de setembro? </p><p>Bom, as energias que circulam Ostara frequentemente est&#227;o associadas a nascimento e in&#237;cios, renascimento, amor, sexualidade, fertilidade, poder pessoal e glamour. Nessa esta&#231;&#227;o, podemos rever nossas prioridades, afinal de contas um equin&#243;cio &#233; tempo de equil&#237;brio.</p><p>Anote como a primavera se d&#225; na regi&#227;o onde voc&#234; mora. Como a natureza est&#225; se comportando? Quais flores come&#231;aram a desabrochar? Quais s&#227;o os aromas sentido? Permita-se sentir a brisa do vento envolver seu corpo e lhe chamar para dan&#231;ar. Sinta o sol beijar sua pele alguns minutinhos por dia, afinal de contas, toda planta precisa da luz do sol para desabrochar.</p><p>Falando em nosso desabrochamento, como o prel&#250;dio da primavera est&#225; ressoando internamente dentro de voc&#234;? O que est&#225; causando nos seus fluxos internos e externos? Se voc&#234; sente que n&#227;o vai desabrochar nessa esta&#231;&#227;o, tudo bem. Lembre-se que as plantas existem esta&#231;&#245;es para seu desabrochamento, talvez voc&#234; seja uma dessas que flori no ver&#227;o, ou no inverno. O que importa &#233; seguir seu ritmo pr&#243;prio, nunca esque&#231;a disso!</p><p>Para perceber isso, recomendo voc&#234; ter um espa&#231;o separado para anotar sobre os ciclos naturais a sua volta. Ir tecendo esta&#231;&#227;o a esta&#231;&#227;o, ano a ano sobre como a natureza se comporta a sua volta. Afinal de contas, a primavera acontece de m&#250;ltiplas maneiras ao redor do planeta, quem dir&#225; em n&#243;s&#8230;</p><p>A pr&#225;tica da bruxaria &#233; pessoal, e al&#233;m de tudo, muito intuitiva, perceber como as esta&#231;&#245;es conversam com nosso esp&#237;rito &#233; fundamental para entender como podemos desabrochar de maneira mais fluida. Nem sempre as celebra&#231;&#245;es se alinharam  perfeitamente com o clima local, ou com o clima interno, por isso entenda como funciona seus fluxos e refluxos, conecte-se com a terra e siga sua intui&#231;&#227;o.</p><p><strong>Atividades que podem ser feitas na primavera:</strong></p><p><em>Plantio de sementes do desejo:</em></p><p>Com a pot&#234;ncia da fertilidade da terra, podemos usar esse poder para cocriar com a m&#227;e natureza, os melhores dias s&#227;o no pr&#243;prio dia do equin&#243;cio, ou nas fases cheia ou nova da lua. Esse ato de plantar uma, ou mais sementes e imbu&#237;-las de desejo simboliza o lan&#231;amento de seus projetos no solo para crescer, mas lembre-se, que assim como essa potencial planta, seus projetos e desejos precisam de tempo, esfor&#231;o e energia para brotar.</p><p>Para realizar esta atividade, voc&#234; pode pegar um pequeno pote ou cesto com algumas sementes locais. Ao colocar uma semente na terra, sussurre para semente um desejo que quer manifestar. Ao plantar as sementes, intencione a conex&#227;o e visualize, n&#227;o s&#243; seu desejo realizados, mas tamb&#233;m a planta forte; voc&#234; as nutrir&#225; e cuidar&#225; por semanas, fortalecendo sua conex&#227;o com o esp&#237;rito da terra e de seus ancestrais.</p><p>Se voc&#234; nunca teve a experi&#234;ncia de plantar e nutrir uma semente, Ostara pode ser uma excelente oportunidade para faz&#234;-lo de maneira ligada &#224; sua espiritualidade. Se preferir, escolha algo que possa ser consumido, como um ch&#225;, uma erva culin&#225;ria ou um legume, para uma experi&#234;ncia ainda mais poderosa e para restaurar seu senso de liga&#231;&#227;o com o esp&#237;rito da terra.</p><p><em>&#193;gua saborizada com frutas e flores:</em></p><p>Outra atividade que voc&#234; pode fazer para ancorar a energia da primavera em sua vida &#233; saborizar &#225;guas e ingerir ao longo do dia. Dessa forma voc&#234; absorve a energia das flores e dos frutos, al&#233;m de se hidratar, claro.</p><p>Escolha frutos c&#237;tricos e perfumados, como laranjas, lim&#245;es, abacaxi&#8230; Voc&#234; pode colocar flores colhidas por voc&#234; mesma, desde que saiba a proced&#234;ncia delas e que elas estejam bem higienizadas. Al&#233;m disso pode colocar outras partes bot&#226;nicas como folhas de hortel&#227; e manjeric&#227;o, e ra&#237;zes como o gengibre&#8230;</p><p>Se preferir, pode comer essas frutas tamb&#233;m, intencionando e ancorando a energia do florescimento em sua vida.</p><p>A primavera traz consigo s&#237;mbolos como lebres e coelhos que anunciam fertilidade e movimento; aves que retornam ao seu lar, mostrando que sempre h&#225; tempo de recome&#231;ar; flores delicadas como margaridas, l&#237;rios e pr&#237;mulas, que pintam nosso mundo de esperan&#231;a; e cores com o verde, amarelo, branco e rosa, que nos recordam da pureza e do frescor da vida em renova&#231;&#227;o. O ovo de Ostara, s&#237;mbolo universal da cria&#231;&#227;o, tamb&#233;m se apresenta como lembran&#231;a de que todo nascimento come&#231;a no sil&#234;ncio de um inv&#243;lucro.</p><p>Essa esta&#231;&#227;o tamb&#233;m nos conecta com as divindades do florescimento e do retorno. Ostara, a deusa germ&#226;nica que d&#225; nome a este sabbat, &#233; celebrada como senhora da aurora e da fertilidade. Pers&#233;fone, a Deusa Grega, por sua vez, sobe novamente do submundo, trazendo consigo a promessa da vida que renasce ap&#243;s a escurid&#227;o. Podemos tamb&#233;m honrar Afrodite, Flora e tantas outras faces do sagrado feminino que inspiram beleza, fertilidade e amor. Convidar essas presen&#231;as para nossos rituais &#233; abrir espa&#231;o para que o divino dialogue com o humano em nosso cotidiano.</p><p>Apolo, o Deus grego da profecia, tamb&#233;m est&#225; ligado a esse ciclo e tem seu retorno na Primavera. Segundo os mitos, ao chegar o Outono, ele deixa Delfos e segue em dire&#231;&#227;o &#224; m&#237;stica Hiperb&#243;rea, a terra dos ventos do norte, onde permanece durante o inverno. &#201; somente no Equin&#243;cio da Primavera que Apolo retorna ao seu santu&#225;rio em Delfos, trazendo novamente consigo a inspira&#231;&#227;o da arte oracular. Durante sua aus&#234;ncia, o templo permanecia sob a dire&#231;&#227;o de Dioniso, senhor dos &#234;xtases. O regresso de Apolo marca a volta da luz e do calor e a retomada das pr&#225;ticas divinat&#243;rias em seu famoso or&#225;culo, conduzidas por sua sacerdotisa, a P&#237;tia. Seu retorno simboliza a reabertura dos caminhos da profecia, lembrando-nos de que a primavera tamb&#233;m &#233; tempo de vis&#227;o clara, de enxergar possibilidades e de receber as mensagens do divino.</p><p>Se voc&#234; sentir o chamado, pode realizar pequenos rituais de Ostara que ancoram essa energia em sua vida. Coloque flores frescas em sua casa ou altar, acenda uma vela verde ou amarela no dia do equin&#243;cio, prepare uma refei&#231;&#227;o colorida em honra &#224; Terra. </p><p>A primavera tamb&#233;m &#233; uma oportunidade de voltar-se para dentro atrav&#233;s de rituais de autoconhecimento. Permita-se meditar ao amanhecer, respirar profundamente enquanto observa a natureza despertar. Banhos de ervas e flores podem purificar seu corpo e energia, preparando-o para novos come&#231;os. Se gostar de escrever, registre em seu di&#225;rio: <em>&#8220;O que desejo ver florescer em mim nesta esta&#231;&#227;o?&#8221;</em>, e observe como suas respostas se transformam ao longo dos dias.</p><p>Se desejar, pe&#231;a um sinal ao universo. Tire uma carta de tarot ou or&#225;culo, ou simplesmente observe os sinais da natureza: o voo de um p&#225;ssaro, a cor de uma flor, um vento repentino. Muitas vezes, &#233; atrav&#233;s dessas pequenas manifesta&#231;&#245;es que a Deusa nos envia mensagens pessoais sobre o caminho a seguir nesta esta&#231;&#227;o florida.</p><p>Queridos, me despe&#231;o desejando que esta primavera seja abundante e luminosa em sua vida. Que suas sementes encontrem solo f&#233;rtil, que seus projetos cres&#231;am fortes e que, no tempo certo, voc&#234; possa colher flores e frutos do que hoje come&#231;a a germinar.</p><p>Com afeto,<br>&#127807; &#205;caros Apol&#244;nio.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" width="62" height="62" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:450,&quot;width&quot;:450,&quot;resizeWidth&quot;:62,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!&quot;,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" title="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>A reprodu&#231;&#227;o deste documento &#233; proibida pela lei de direito autoral N&#186;9610 de 19 de Fevereiro de 1998 que pro&#237;be a reprodu&#231;&#227;o para fins comerciais ou n&#227;o, em qualquer meio de comunica&#231;&#227;o, inclusive na internet, sem pr&#233;via consulta e aprova&#231;&#227;o do autor.</p><p>Brasil,<br>17/09/2025</p><p></p><p>Fontes utilizadas na carta:</p><ul><li><p>O Caminho de Pers&#233;fone -  Obsidiyana</p></li><li><p>Grim&#243;rio de Apolo I - &#205;caros Apol&#244;nio</p></li><li><p>Grim&#243;rio I - &#205;caros Apol&#244;nio</p></li><li><p>Bruxaria Solit&#225;ria - Fl&#225;vio Lopes</p></li><li><p>O Grim&#243;rio Moderno das Bruxas - Jason Mankey</p></li><li><p>Bruxaria intuitiva - Temperance Alden</p></li></ul>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta 03: Entre desejo, vontade e fluxo mágico]]></title><description><![CDATA[A bruxa tem o poder de alinhar o desejo a vontade e o fluxo m&#225;gico com as leis do universo.]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-03-entre-desejo-vontade-e-fluxo</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-03-entre-desejo-vontade-e-fluxo</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Thu, 21 Aug 2025 17:30:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a5261656-a560-4797-9969-7cb0373f45bf_600x642.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Queridos,</strong></p><p>Dando continuidade aos assuntos que tratamos recentemente, vamos falar nesta carta sobre como a magia opera no universo. Antes de tudo, precisamos entender como ela pode ser descrita.</p><p>Em meu ponto de vista, a magia &#233;, em sua ess&#234;ncia, a energia infundida com inten&#231;&#227;o. &#201; a manipula&#231;&#227;o da energia dispon&#237;vel no cosmo, seja dos elementos, seres, objetos ou qualquer outra coisa, direcionada com foco, na inten&#231;&#227;o de transformar a realidade de quem opera ou de quem ser&#225; alvo, seja para o <em>bem</em>, seja para o <em>mal</em>.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?"><span>Subscreva agora</span></a></p><p>A magia transcende o mero desejo do magista, exigindo um processo din&#226;mico que pede contribui&#231;&#227;o e aten&#231;&#227;o cont&#237;nua, n&#227;o sendo uma atividade passiva. Ela transforma pensamentos em a&#231;&#245;es pr&#225;ticas, desejos em realidades palp&#225;veis.</p><p>Segundo Jason Mankey, em seu livro <em>O Grim&#243;rio Moderno das Bruxas</em>, a Magia e a Energia s&#227;o partes naturais do Universo e se comportam como tal. Elas t&#234;m suas pr&#243;prias leis e, assim como qualquer lei, n&#227;o podem sobrepor outras do mesmo n&#237;vel. Ou seja, uma magia n&#227;o pode alterar uma lei universal. A magia &#233; o impulso que direciona as situa&#231;&#245;es a nosso favor, criando condi&#231;&#245;es para que nossos pedidos possam se manifestar no mundo material.</p><p><em>&#8220;N&#227;o &#233; justo dizer que a magia foi a &#250;nica raz&#227;o de essas coisas acontecerem. [&#8230;] Ela foi o &#8216;empurr&#227;ozinho&#8217; que trouxe o que est&#225;vamos buscando para nossa vida.&#8221;</em></p><p>Querido, desde cedo &#233; importante entender: para que sua magia seja eficiente e eficaz, &#233; preciso direcion&#225;-la a objetivos espec&#237;ficos. Quanto mais espec&#237;fico, melhor. Desejos vagos enfraquecem o encantamento necess&#225;rio para sustentar a magia pedida. Por exemplo: querer ficar rico &#233; uma boa ideia, mas focar em conseguir um emprego que lhe proporcione melhores condi&#231;&#245;es financeiras &#233; um objetivo mais claro e tang&#237;vel do que apenas &#8220;jogar um pedido ao universo&#8221;.</p><p>Outro ponto importante: a magia n&#227;o &#233; m&#225;gica! Sem &#8220;mas&#8221;. &#201; preciso cultivar paci&#234;ncia e entrega nas pr&#225;ticas m&#225;gicas, pois o resultado, na maioria das vezes, n&#227;o &#233; imediato. Pode levar dias, semanas ou anos para que o objetivo se cumpra, e, muitas vezes, ser&#225; necess&#225;rio refor&#231;ar o pedido. A magia pode, e deve, quando necess&#225;rio, ser refor&#231;ada, mas nunca for&#231;ada! Esse foi um dos ensinamentos que aprendi com a Sacerdotisa do coven do qual fiz parte no in&#237;cio da minha jornada na bruxaria, Samanta Hilbert.</p><p>A entrega da qual falo &#233; confiar que existem for&#231;as superiores operando para que o objetivo se cumpra. Feiti&#231;o lan&#231;ado nunca volta vazio. Ao fazer sua magia, tenha paci&#234;ncia e n&#227;o se preocupe o tempo inteiro em checar se ela est&#225; funcionando. Ela vai se manifestar na hora certa.</p><p>A magia, de fato, tende sempre a seguir o caminho mais f&#225;cil, ou seja, o de menor resist&#234;ncia. Muitas vezes, quando consideramos um feiti&#231;o falho, na verdade a magia encontrou uma via inesperada para se manifestar no plano material, o que pode gerar efeitos diferentes dos esperados.</p><p>Veja alguns exemplos:</p><p>Voc&#234; tem seu emprego h&#225; cinco anos, est&#225; endividado e precisa de dinheiro r&#225;pido, ent&#227;o faz um feiti&#231;o para isso. Se o caminho de menor resist&#234;ncia encontrado pela magia for sua demiss&#227;o, com direito a rescis&#227;o e outros acertos trabalhistas, o dinheiro vai chegar, mas provavelmente n&#227;o da forma como voc&#234; queria.</p><p>Se uma pessoa querida est&#225; muito doente, um feiti&#231;o de cura pode, em alguns casos, acelerar sua morte se a magia n&#227;o encontrar um caminho vi&#225;vel para a melhora. Isso n&#227;o significa que a magia n&#227;o funciona, mas que precisamos compreender e remover, quando poss&#237;vel, os empecilhos que dificultam sua manifesta&#231;&#227;o.</p><p>Um dos maiores empecilhos &#233; o inimigo interno da bruxa: limita&#231;&#245;es, dores n&#227;o curadas, traumas, senso de inferioridade, falta de merecimento, medos, sabotagem ou qualquer outro bloqueio. Para que a magia flua livremente, &#233; preciso primeiro estar disposta a reconhecer e enfrentar essas batalhas internas. Fazer isso j&#225; &#233; 80% do caminho.</p><p>Criar expectativa excessiva em rela&#231;&#227;o ao feiti&#231;o lan&#231;ado tamb&#233;m cria limites para a magia. &#201; vital enxergar o potencial em tudo e acreditar que tudo &#233; poss&#237;vel. Mas isso n&#227;o significa aus&#234;ncia de expectativas: o ideal &#233; mergulhar no autoconhecimento para alinhar desejo e inten&#231;&#227;o, aumentando a efetividade da pr&#225;tica m&#225;gica.</p><p>Como est&#225; inscrito no Templo de Delfos: <em>&#8220;Conhece a ti mesmo.&#8221;</em> Elaborar feiti&#231;os vai muito al&#233;m da queima de ervas, da combust&#227;o da vela e do uso de caldeir&#245;es, t&#233;cnicas ou palavras bonitas em ritmo. &#201; preciso que a bruxa se encontre consigo mesma, reconhe&#231;a sua vontade e esteja atenta &#224;s armadilhas da sombra que podem afetar o resultado. Alinhar a vontade com nossa mente &#233; sempre a chave.</p><p>Esse processo &#233; uma transforma&#231;&#227;o alqu&#237;mica e m&#225;gica. Primeiro, &#233; necess&#225;rio um entendimento te&#243;rico do funcionamento da magia e da bruxaria de forma geral. Depois, o reconhecimento de nossas pr&#243;prias fragilidades humanas. Trabalh&#225;-las &#233; como fortalecer um m&#250;sculo: exige tempo, dedica&#231;&#227;o e disciplina. N&#227;o h&#225; atalhos.</p><p>Voc&#234; vai ouvir por a&#237; que a bruxaria &#233; um estilo de vida, e eu n&#227;o tenho d&#250;vidas quanto a isso. A bruxa precisa respirar magia e encantamento todos os dias para fortalecer sua consci&#234;ncia m&#225;gica e se reafirmar em um mundo que constantemente marginaliza os nossos. Queridos, n&#227;o se trata de milit&#226;ncia, mas de consci&#234;ncia: esse entendimento nos ajuda a n&#227;o deixar que o caos exterior engula nossa esperan&#231;a enquanto praticantes.</p><p>Agora vamos aos tr&#234;s pilares que lhe ajudar&#227;o a tornar suas magias cada vez mais efetivas:</p><p><strong>Visualiza&#231;&#227;o</strong> &#8211; &#233; uma das habilidades m&#225;gicas fundamentais. Com ela, vemos o resultado do desejo no momento da pr&#225;tica. N&#227;o basta pedir um carro: visualize-se sentada nele, m&#227;os no volante, sentindo a textura do banco, vendo sua cor, percebendo o cheiro interior. N&#227;o pense em como ele chegar&#225; at&#233; voc&#234;, visualize o resultado j&#225; manifestado.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cavaleiroentreoveu.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Partilhar Cartas do Cavaleiro&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cavaleiroentreoveu.substack.com/?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Partilhar Cartas do Cavaleiro</span></a></p><p><strong>Desejo</strong> &#8211; n&#227;o basta visualizar; &#233; preciso desejar verdadeiramente o resultado. O desejo libera a energia necess&#225;ria para que a manifesta&#231;&#227;o ocorra no Universo.</p><p><strong>Determina&#231;&#227;o</strong> &#8211; n&#227;o basta pedir e esperar sentado. Muitas magias exigem nossa movimenta&#231;&#227;o no plano material. &#201; dif&#237;cil conseguir um novo emprego apenas com feiti&#231;os se voc&#234; n&#227;o se qualifica ou participa de entrevistas.</p><p>Lembre-se: a responsabilidade do bruxo vai al&#233;m do feiti&#231;o lan&#231;ado. Muitas vezes, &#233; preciso facilitar o processo m&#225;gico.</p><p>Portanto, a magia n&#227;o &#233; apenas sobre manipular for&#231;as invis&#237;veis, mas tamb&#233;m sobre aprender a nos tornarmos cocriadores conscientes da nossa pr&#243;pria realidade. Cada feiti&#231;o lan&#231;ado &#233; um acordo com o Universo, e cada resposta que recebemos &#233; tamb&#233;m um reflexo do nosso pr&#243;prio interior. Ao praticar, lembre-se de que voc&#234; n&#227;o est&#225; apenas transformando o mundo fora de voc&#234;, mas tamb&#233;m refinando quem voc&#234; &#233; por dentro.</p><p>Assim, a jornada da bruxaria &#233; tanto um caminho de poder quanto de responsabilidade. Cada vela acesa, cada erva queimada, cada palavra sussurrada carrega consigo um peso. Somos guardi&#245;es desse mist&#233;rio e, ao mesmo tempo, aprendizes eternos dele. A beleza da magia est&#225; justamente em nunca se esgotar: sempre haver&#225; mais para aprender, mais para sentir, mais para descobrir. Mas esse caminho exige estudo, respeito e seriedade.</p><p>Que esta carta lhe encontre em um bom momento e que seja para voc&#234; n&#227;o apenas um ensinamento, mas um convite &#224; reflex&#227;o sobre sua pr&#243;pria pr&#225;tica magica. Gostaria muito de saber como essas palavras ressoaram em seu cora&#231;&#227;o e quais s&#227;o as suas percep&#231;&#245;es sobre o que aqui compartilhei.</p><p>Assim, deixo-lhe o convite: escreva-me de volta com uma nova carta, trazendo suas d&#250;vidas, experi&#234;ncias ou mesmo relatos de suas pr&#243;prias pr&#225;ticas m&#225;gicas.</p><p>Com afeto,<br>&#127807; &#205;caros Apol&#244;nio.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" width="62" height="62" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:450,&quot;width&quot;:450,&quot;resizeWidth&quot;:62,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" title="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>A reprodu&#231;&#227;o deste documento &#233; proibida pela lei de direito autoral N&#186;9610 de 19 de Fevereiro de 1998 que pro&#237;be a reprodu&#231;&#227;o para fins comerciais ou n&#227;o, em qualquer meio de comunica&#231;&#227;o, inclusive na internet, sem pr&#233;via consulta e aprova&#231;&#227;o do autor.</p><p>Brasil,<br>21/08/2025</p><p></p><p>Fontes utilizadas na carta: </p><ul><li><p>Bruxa interior - Juliet Diaz</p></li><li><p>Bruxaria Solit&#225;ria - Fl&#225;vio Lopes</p></li><li><p>Bruxaria para todos - Kate Assis</p></li><li><p>O Grim&#243;rio Moderno das Bruxas - Jason Mankey  </p></li><li><p>Tratado elementar de Ci&#234;ncias Ocultas - Papus</p></li><li><p>Bruxaria intuitiva - Temperance Alden</p></li></ul><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Cartas do Cavaleiro! 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N&#227;o basta ser bruxa, tem que ser inteira.]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-02-quando-a-bruxa-goza-com</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-02-quando-a-bruxa-goza-com</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Mon, 11 Aug 2025 16:17:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3b005f41-0c62-41f3-967b-1187fc22fd3a_735x735.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Queridos,</strong></p><p>Volto a escrever a voc&#234;s, pois nos &#250;ltimos dias vivi diversas situa&#231;&#245;es que me desafiaram em rela&#231;&#227;o a ser um bruxo. N&#227;o se enganem: mesmo uma pessoa com anos de experi&#234;ncia m&#225;gica passa por prova&#231;&#245;es, tanto externas quanto internas. A mais desafiadora, sem d&#250;vida, &#233; a interna. Pois enquanto os ataques externos podem ser repelidos com feiti&#231;os, palavras firmes ou sil&#234;ncio friamente calculado, os questionamentos internos exigem de n&#243;s um enfrentamento mais profundo, quase cir&#250;rgico, capaz de nos despir das ilus&#245;es que criamos sobre n&#243;s mesmos.</p><p>Tenho me questionado sobre o fato de seguir uma linha &#8212; quase puritana &#8212; em um mundo que insiste em me afetar de diversas formas. A bruxaria &#233; uma forma de resist&#234;ncia a essa opress&#227;o, sim! Mas, mesmo assim, percebo que ainda existem, em mim, resqu&#237;cios de uma moralidade herdada, fragmentos de cren&#231;as e julgamentos que n&#227;o me pertencem por inteiro.</p><p>S&#227;o heran&#231;as de um mundo que tenta nos moldar desde o nascimento, enraizadas t&#227;o profundamente que, &#224;s vezes, se disfar&#231;am de &#8220;valores&#8221; ou &#8220;virtudes&#8221; nossas. Essas marcas, embora sutis e moralmente aceitas, podem se tornar correntes invis&#237;veis que nos prendem a padr&#245;es que n&#227;o cabem em certos cen&#225;rios, e muito menos nos de opress&#227;o. Vejo isso n&#227;o apenas em mim, mas tamb&#233;m em muitas bruxas e bruxos modernos, que carregam, mesmo sem perceber, a sombra de um c&#243;digo moral que nunca nasceu da tal liberdade prometida.</p><p>Essa moralidade que nos foi ensinada nos prende a um ciclo de expectativas, mas afinal o que &#233; esperado de um bruxo? J&#225; n&#227;o &#233; um t&#237;tulo socialmente aceito, mas j&#225; que voc&#234; vai ser um, ent&#227;o aqui segue um conjunto de regras para seu conv&#237;vio com a sociedade: Que voc&#234; seja bom, justo, e claro, que n&#227;o se vingue. Mas quem nos oprime n&#227;o se importa com essas regras. E por que dever&#237;amos? A verdadeira liberdade m&#225;gica n&#227;o est&#225; em ser a vers&#227;o "boazinha" que o mundo espera de n&#243;s, mas em sermos aut&#234;nticos e poderosos, em toda a nossa complexidade.</p><p>Muitos de n&#243;s fomos criados em culturas que temem o poder feminino, a magia e tudo que foge ao controle. Carregamos o trauma de gera&#231;&#245;es que precisaram se esconder para sobreviver. A moralidade que herdamos muitas vezes n&#227;o &#233; nossa, mas &#233; uma armadura que nos protege do julgamento externo mas que ao mesmo tempo nos impede de explorar a totalidade de nossa for&#231;a.</p><p>A autonomia bruxa &#233;, em sua ess&#234;ncia, a capacidade de tomar as r&#233;deas da pr&#243;pria vida e da pr&#243;pria magia, sem pedir permiss&#227;o a ningu&#233;m.</p><p>A lei tr&#237;plice diz: "Aquilo que voc&#234; faz volta tr&#234;s vezes para voc&#234;". Isso n&#227;o &#233; uma verdade absoluta ou incontest&#225;vel. Na realidade, se a frase fizer sentido para voc&#234;, ela &#233; a sua verdade, pois cada pessoa tem sua parte da verdade. No fim do dia, tudo &#233; relativo, e nada &#233; ou ser&#225; absoluto, queridos. Podemos construir nossa verdade quantas vezes for preciso.</p><p>O que quero dizer &#233; que, na bruxaria, na minha bruxaria, n&#227;o h&#225; karma. Mas isso n&#227;o &#233; um convite para fazer tudo o que der na telha, pois desenvolver a consci&#234;ncia de nossos atos &#233; um dos meu requisitos inegoci&#225;veis e intransfer&#237;veis, por mais que doa. Nosso poder vem da nossa responsabilidade e do nosso alinhamento com a natureza ao nosso redor, n&#227;o de um sistema de recompensas e puni&#231;&#245;es. A magia flui com a inten&#231;&#227;o, e a inten&#231;&#227;o &#233; constru&#237;da por n&#243;s.</p><p>A lei tr&#237;plice pode ser uma ferramenta &#250;til para alguns, um lembrete para refletir sobre as consequ&#234;ncias de suas a&#231;&#245;es e uma forma de frear muitos impulsivos. Mas ela n&#227;o &#233; um dogma inquebr&#225;vel. Nossa &#233;tica vem do nosso pr&#243;prio centro, da nossa verdade, do que nos torna humanos e m&#225;gicos, e n&#227;o de um medo de retalia&#231;&#227;o, seja ela digital ou espiritual.</p><p>Os deuses e a magia n&#227;o distinguem o que &#233; certo ou errado; essa moralidade &#233; nossa. Eles simplesmente s&#227;o. Toda essa constru&#231;&#227;o do bem e do mal foi e continua sendo criada a partir de um ponto de vista castrador, o mesmo que diariamente pasteuriza nossas vidas. &#201; esse ponto de vista que nos faz temer retribuir com o mal quando o mal nos &#233; feito.</p><p>O conceito do bem e do mal &#233; uma inven&#231;&#227;o para controlar e limitar o poder humano. Na magia, existe o equil&#237;brio, a troca, a causa e o efeito, mas n&#227;o um julgamento moral universal. Essa engenhosa e perigosa constru&#231;&#227;o fez parte da agenda (leia-se inquisi&#231;&#227;o) e foi usada para conter, perseguir, domesticar e limitar todas as pessoas que caminhavam pela via esquerda. E nesse processo:</p><p>Podaram o instinto da bruxa.</p><p>De alguma forma, essa simples frase ecoa em mim toda vez que eu n&#227;o vivo minha verdade. &#201; como um estalar de dedos, e de repente tudo perde cor; a vida deixa de pulsar, e as cenas ao meu redor se transforma num enorme filme em preto e branco, sem brilho, sem sabor, sem cheiro. Negar minha verdade &#233; como voltar a caminhar nos trilhos enferrujados que tantas de minhas antepassadas foram obrigadas a seguir, como se o destino delas tivesse sido desenhado para tamb&#233;m aprisionar o meu.</p><p>A separa&#231;&#227;o da intui&#231;&#227;o, mal&#237;cia e sentimentos.</p><p>Enfraquecer seus sentimentos, para que o cora&#231;&#227;o deixasse de ser sua b&#250;ssola inerrante e passasse a ser apenas um m&#250;sculo obediente. Assim, muitas de n&#243;s passamos a duvidar dos pr&#243;prios press&#225;gios, a sufocar nossos desejos, a amarrar nossas vontades para caber em moldes que nunca foram feitos para n&#243;s.</p><p>O instinto da bruxa a levou para a cama do diabo.</p><p>E ele se lambuzou inteiro.</p><p>Se, para viver a minha verdade, eu tiver que me deitar com o diabo, o farei quantas vezes forem necess&#225;rias.<br>E nem apenas deitar, mas segurar seus chifres com a m&#227;o e olha-lo nos olhos sem temer, sem desviar. Sentir seu h&#225;lito quente queimar minha pele e sorrir com o calor.</p><p>Gozai com o diabo, minha bruxa.</p><p>Goze at&#233; o c&#233;u se fundir com o inferno.</p><p>At&#233; que a terra sob seus p&#233;s estreme&#231;a, seja por medo ou desejo de ti.</p><p>O teu gozo &#233; libertador.</p><p>O teu gozo &#233; libertador porque ele &#233; profano, e o que &#233; profano para eles &#233; sagrado para n&#243;s.</p><p>Reivindique seu prazer e sua f&#250;ria por direito!</p><p>Reivindica teu prazer, sim, mas tamb&#233;m tua raiva, tua fome, teu poder bruto, sem tradu&#231;&#227;o para a linguagem das ovelhas, tua f&#250;ria &#233; de lobo!<br>Toma posse da tua escurid&#227;o como quem toma posse de um trono, e senta-te nele com as pernas abertas, olhando o mundo nos olhos.</p><p>N&#227;o pe&#231;a licen&#231;a.<br>N&#227;o pe&#231;a perd&#227;o.</p><p>E se o pre&#231;o for o inferno, que venham as chamas, pois nelas dan&#231;ar&#225;s vestida de c&#233;u, coroada, e at&#233; o pr&#243;prio diabo te aplaudir&#225;.<br><br><br>Com afeto,<br>&#127807; &#205;caros Apol&#244;nio.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" width="72" height="72" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:450,&quot;width&quot;:450,&quot;resizeWidth&quot;:72,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" title="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>A reprodu&#231;&#227;o deste documento &#233; proibida pela lei de direito autoral N&#186;9610 de 19 de Fevereiro de 1998 que pro&#237;be a reprodu&#231;&#227;o para fins comerciais ou n&#227;o, em qualquer meio de comunica&#231;&#227;o, inclusive na internet, sem pr&#233;via consulta e aprova&#231;&#227;o do autor.</p><p>Brasil,<br>11/08/2025</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta 01 - Onde a Magia retorna]]></title><description><![CDATA[Uma introdu&#231;&#227;o a Roda do Ano Sul e a dan&#231;a c&#237;clica da Terra e o cora&#231;&#227;o da bruxa.]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-01-onde-a-magia-retorna</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/carta-01-onde-a-magia-retorna</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Sun, 03 Aug 2025 16:06:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Queridos,</strong></p><p>Como sabem, me afastei da internet por diversos motivos. O principal deles foi a decis&#227;o de me dedicar exclusivamente ao of&#237;cio da bruxaria e da feiti&#231;aria. Por isso, nossos contatos t&#234;m se estabelecido apenas por meio destas cartas, ao menos por enquanto. Mas acredito que, mesmo assim, conseguiremos ter di&#225;logos e trocas ricas sobre as mais diversas &#225;reas da bruxaria, da magia e da feiti&#231;aria.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png" width="60" height="60" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:612,&quot;width&quot;:612,&quot;resizeWidth&quot;:60,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!-jI0!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff2e460e5-fae1-4dc7-a8fd-979b5f051578_612x612.png 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>Primeiramente, gostaria de compartilhar com voc&#234;s o que, na minha vis&#227;o, &#233; a bruxaria. Ela &#233; a arte de viver a sua verdade, de forma visceral e experimental. S&#227;o todos os testes que fazemos e documentamos em nossos caminhos. &#201; a re-conex&#227;o com a Grande M&#227;e e o Grande Pai. &#201; a chama da vida e de seus mist&#233;rios, que volta a ser acesa em nossos cora&#231;&#245;es, sem a necessidade de enfeites bonitos ou objetos caros. A verdade &#233; que a bruxaria mora na inten&#231;&#227;o, e n&#227;o no espet&#225;culo de velas, incensos e artif&#237;cios luxuosos. E &#233; justamente por isso que ela sobreviveu.</p><p>Podemos ser bruxos com muito pouco. Atualmente, onde estou, n&#227;o tenho um altar extremamente caro ou complexo. Na verdade, &#233; o oposto disso. A maior parte da minha bruxaria acontece quando vivo a minha verdade, em profunda comunh&#227;o com os esp&#237;ritos ao meu redor, os que eu chamo, &#233; claro, mas isso &#233; assunto para nossas futuras cartas. Sigo trilhando minhas rela&#231;&#245;es e aprendendo coisas novas.</p><p>O mais lindo nesse caminho &#233; que podemos ser nossos pr&#243;prios guias no processo. Essa jornada pode, e deve, ser experimental em diversos n&#237;veis permitam-se sujar suas roupas e m&#227;os. O cont-ato com a natureza ir&#225; mostrar a voc&#234;s o verdadeiro significado dessas palavras que v&#243;s escrevo.</p><p>O primeiro ponto te&#243;rico que gostaria de compartilhar com voc&#234;s &#233; que seguimos (mas n&#227;o &#233; obrigat&#243;rio) uma Roda do Ano. Ela funciona, basicamente, como uma dan&#231;a orquestrada pela Deusa M&#227;e e pelo Deus Pai, que representa o ciclo das vidas divinas e se reflete em nossa viv&#234;ncia pr&#225;tica aqui na Terra.</p><p>O ponto mais importante sobre a Roda do Ano &#233; entender sua ciclicidade. Independentemente de qual vers&#227;o da roda voc&#234;s escolham seguir, quero enfatizar que o essencial &#233; compreender que somos c&#237;clicos, assim como a natureza. Fazemos parte dessa dan&#231;a ritmada.</p><p>Ao observarmos as mudan&#231;as na natureza, identificamos que elas tamb&#233;m acontecem em n&#243;s. Na Roda do Ano participamos como personagens principais da trama, n&#227;o como meros expectadores.</p><p>A roda que eu sigo &#233; a mais comum entre as bruxas do Sul global. Ela &#233; composta por oito per&#237;odos, chamados de sab&#225;s (do ingl&#234;s <em>sabbats</em>), e que dividimos em duas grandes fases: a clara e a escura, ou, simbolicamente, o tempo da luz e o tempo da sombra.</p><p>A fase clara &#233; a fase solar, em que o Deus Corn&#237;fero, o Deus das Bruxas, est&#225; em seu auge de poder. Podemos senti-lo se expressando na natureza exuberante. No calend&#225;rio sazonal, essa fase corresponde &#224; primavera e ao ver&#227;o.</p><p>A fase escura, por sua vez, abrange o outono e o inverno. &#201; o tempo da introspec&#231;&#227;o, do retorno ao &#250;tero da Deusa. Esse per&#237;odo nos convida &#224; introspec&#231;&#227;o, nutri&#231;&#227;o.</p><p>Alguns desses sab&#225;s t&#234;m datas fixas, enquanto outros t&#234;m datas m&#243;veis, principalmente os que marcam a entrada exata das esta&#231;&#245;es. Por isso, &#233; importante acompanhar o calend&#225;rio anual e estar atento &#224;s mudan&#231;as da natureza para sentir o momento em que determinada energia entra em vigor.</p><h3>Os oito sabbaths s&#227;o:</h3><h4><strong>&#127761; Yule &#8211; 21 a 23 de Junho</strong></h4><p>Solst&#237;cio de Inverno<br> &#201; o dia mais escuro do ano. Celebramos aqui o nascimento do Deus, o retorno do Sol que vem como uma sementinha, uma promessa. Aqui Ele &#233; um pontinho de luz que vem nos dizer que a escurid&#227;o que est&#225; em vigor ir&#225; passar. Mesmo em meio ao frio e &#224; escurid&#227;o, carregamos a esperan&#231;a da luz que h&#225; de crescer.</p><h4><strong>&#128367;&#65039; Imbolc &#8211; 1&#186; de Agosto</strong></h4><p>Celebramos o crescimento do Sol prometido em Yule. Ele agora j&#225; n&#227;o &#233; mais apenas uma semente de esperan&#231;a, come&#231;a a se manifestar. &#201; um tempo de purifica&#231;&#227;o, inspira&#231;&#227;o e pren&#250;ncio da primavera.</p><h4><strong>&#127800; Ostara &#8211; 21 a 23 de Setembro</strong></h4><p>Equin&#243;cio de Primavera<br> A luz e a sombra est&#227;o em equil&#237;brio. A natureza floresce e os dias se alongam. Celebramos a fertilidade, o renascimento e o despertar da vida.</p><h4><strong>&#128293; Beltane &#8211; 31 de Outubro</strong></h4><p>&#201; o festival do fogo, da paix&#227;o e da fertilidade. Aqui celebramos a uni&#227;o do Deus e da Deusa, o casamento sagrado que fecunda a terra. &#201; tempo de alegria, de honrar os prazeres da vida, os encontros, a criatividade e a sensualidade sagrada. A natureza est&#225; viva, vibrante, e n&#243;s tamb&#233;m. Muitos bruxos acendem fogueiras, dan&#231;am e expressam gratid&#227;o pelo amor e pelo poder criador.</p><h4><strong>&#9728;&#65039; Litha &#8211; 21 a 23 de Dezembro</strong></h4><p>Marca o Solst&#237;cio de Ver&#227;o. &#201; o &#225;pice da luz solar. O Deus Corn&#237;fero est&#225; em sua pot&#234;ncia m&#225;xima. Os dias s&#227;o longos, o calor se intensifica, e a colheita come&#231;a a se formar. Celebramos a abund&#226;ncia, a plenitude da vida e o poder da realiza&#231;&#227;o. Tamb&#233;m &#233; um tempo para entender que ap&#243;s esse auge, a luz come&#231;a a declinar, e com isso, somos convidados a refletir sobre o equil&#237;brio entre dar e receber, crescer e recolher.</p><h4><strong>&#127806; Lammas / Lughnasadh &#8211; 2 de Fevereiro</strong></h4><p>A primeira colheita. Aqui come&#231;amos a colher aquilo que foi semeado durante os ciclos anteriores, tanto na terra quanto em nossos processos pessoais. &#201; tempo de gratid&#227;o, mas tamb&#233;m de avalia&#231;&#227;o: o que cresceu? O que n&#227;o vingou? O que podemos aprender? &#201; um sab&#225; de humildade, de honra ao trabalho e aos ciclos do esfor&#231;o. Aqui tamb&#233;m entendemos mais sobre o sacro-of&#237;cio nosso em nossa pr&#243;pria vida/jornada.</p><h4><strong>&#127809; Mabon &#8211; 21 a 23 de Mar&#231;o</strong></h4><p>Equin&#243;cio de Outono<br> Mais uma vez, luz e sombra se equilibram, mas agora a escurid&#227;o come&#231;a a crescer. &#201; o tempo da segunda colheita, de agradecimento e partilha. Tamb&#233;m &#233; o momento de se preparar para o recolhimento do inverno. A Deusa come&#231;a a se transformar na Anci&#227;, e o Deus se encaminha para o ciclo de morte. Mabon &#233; o sab&#225; do desapego consciente.</p><h4><strong>&#127768; Samhain &#8211; 1 de Maio</strong></h4><p>O ano novo das bruxas. O v&#233;u entre os mundos est&#225; mais fino, e celebramos aqui os ancestrais, os mortos e os mist&#233;rios da alma. &#201; um sab&#225; de introspec&#231;&#227;o, fechamento e transi&#231;&#227;o. Honramos o fim de um ciclo e nos preparamos para renascer em Yule. Esse &#233; o momento mais escuro e profundo da roda, onde a sabedoria antiga &#233; acessada, onde o sil&#234;ncio fala, onde o invis&#237;vel se revela.</p><p>&#8220;Essa &#233; a promessa: Independente do que aconte&#231;a, a Roda sempre permanecer&#225; girando&#8221;</p><p>O mais delicioso, na minha opini&#227;o, &#233; que tudo aqui &#233; c&#237;clico! N&#227;o h&#225; come&#231;o ou fim nessa roda. Podemos escolher quando iniciar esse processo de maneira intencional. A roda gira constantemente, como a espiral da vida, e em cada ponto dela h&#225; uma oportunidade de renascer, adubar, de mergulhar mais fundo em si mesmo, crescer e se expandir, ou de colher os frutos de antigas sementes.</p><p>Essa aus&#234;ncia de um in&#237;cio r&#237;gido nos liberta, n&#227;o precisamos esperar a "hora certa" para nos re-conectarmos com a natureza ou com nossa ess&#234;ncia m&#225;gica. Podemos simplesmente entrar na dan&#231;a onde estivermos, com o que tivermos, e deixar que a pr&#243;pria roda nos conduza. Cada sab&#225;, cada esta&#231;&#227;o, &#233; uma porta aberta que nos convida a entrar e viver aquele momento plenamente. E isso, para mim, &#233; uma das maiores belezas da bruxaria.</p><p>Queridos, somos a semente que desce ao solo - submundo - para germinar, crescemos em dire&#231;&#227;o ao sol, encontramos nossa vitalidade, nos sacrificamos, morremos e aguardamos o renascimento diversas vezes nas nossas vidas.</p><p>Um processo ourob&#243;rico, sem in&#237;cio, sem fim. Sem a necessidade de um intercessor entre n&#243;s. A Deusa e o Deus habitam em n&#243;s.</p><p>Me despe&#231;o por aqui, que essa carte lhe encontre em um bom momento. Permita-se sentir a dan&#231;a da natureza. Conecte-se com ela e veja nela o que est&#225; sendo refletido em voc&#234;. Me responda com outra carta sobre suas descobertas por a&#237;.</p><p>Te escreverei futuramente sobre mais processos m&#225;gikos. Enquanto isso, cuide-se com gentileza, celebre o que floresce em voc&#234;, e honre tamb&#233;m o que precisa repousar. A Roda continua a girar, e n&#243;s com ela.</p><p>Com afeto,<br> &#127807; &#205;caros Apol&#244;nio.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg" width="76" height="76" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:450,&quot;width&quot;:450,&quot;resizeWidth&quot;:76,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" title="Cont&#233;m: Tatuaje de Lunas!" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!A_-L!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe0a8dc59-de58-4a8c-b760-30d820f6e2d7_450x450.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>A reprodu&#231;&#227;o deste documento &#233; proibida pela lei de direito autoral N&#186;9610 de 19 de Fevereiro de 1998 que pro&#237;be a reprodu&#231;&#227;o para fins comerciais ou n&#227;o, em qualquer meio de comunica&#231;&#227;o, inclusive na internet, sem pr&#233;via consulta e aprova&#231;&#227;o do autor.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg" width="60" height="70.42553191489361" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:662,&quot;width&quot;:564,&quot;resizeWidth&quot;:60,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f58Z!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa6ee95ce-ae66-416b-925d-529c2e755db9_564x662.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>Brasil,<br>03/08/2025<br></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Cartas do Cavaleiro! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O amor que não permanece]]></title><description><![CDATA[A solid&#227;o, efemeridade e o desencanto nas rela&#231;&#245;es LGBTQIAPN+ modernas]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/o-amor-que-nao-permanece</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/o-amor-que-nao-permanece</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Mon, 28 Jul 2025 21:51:06 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!jlMX!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb9a7008e-660f-495c-8ad0-2bd8e334db05_576x576.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>N&#227;o entendo a efemeridade dos relacionamentos LGBTQIAPN+.</p><p>T&#225; certo que Bauman discorre muito bem sobre o relacionamento l&#237;quido em tempos modernos. A era da volatilidade, aqui nada &#233; feito para durar, e isso &#233; t&#227;o real como as areias que pego no mar e em segundos vejo as &#225;guas as dissolverem como fuma&#231;a. Eu, um homem gay, sinto assisto diariamente a dor dilacerante de cada desamor que presencio.</p><p>&#201; de extrema infelicidade ver casais que, ao meu ver, s&#227;o incr&#237;veis, que tenho como inspira&#231;&#245;es, se desfazerem, destru&#237;dos como os castelos de areia que constru&#237;a quando crian&#231;a. Serem reduzidos a p&#243; devido a um simples momento: O desejo por prazer f&#225;cil, imediato e de dopamina barata corrompe, e rompe, quaisquer elos que existem em rela&#231;&#245;es homoafetivas.</p><p>Neste <s>alegre </s>universo nada &#233; feito para durar.</p><p>Dormir em todas as camas, amar v&#225;rios corpos. Se satisfazer por um breve e curto per&#237;odo s&#243; te levar&#225; mais para sua crise. </p><p>A busca pelo prazer instant&#226;neo promovido pelo autoconsumo de pornografia esta infectando nossas cabe&#231;as e prazeres, moldando nossa forma de nos relacionar e trocas afetivas. E que nos ensinou que se deu errado &#233; s&#243; descartar e trocar.</p><p>Corpos pol&#237;ticos moldados pelos desejos e sistemas alheios.</p><p>Ou ser&#225; porque vivemos tanto tempo em arm&#225;rios, engaiolados em diversas amarras que ao provar um &#237;nfimo gosto pela tal liberdade que nos prometeram, sucumbimos ao ponto de lan&#231;ar tudo o que temos nas m&#227;o para o ar? Por que, diante do m&#237;sero e reluzente momento da liberdade sexual/afetiva desfazemos tudo?</p><p>N&#227;o me venha com desculpas.</p><p>Somos dominados pelos nossos prazeres eg&#243;icos. N&#227;o somos nada al&#233;m de m&#225;quinas movidas por instintos e sedentas por pequenas doses de prazer. Viciados em valida&#231;&#245;es moment&#226;neas, a maldi&#231;&#227;o do s&#233;culo.</p><p>Vivemos num tempo onde o prazer moment&#226;neo &#233; mais importante que o que constru&#237;mos ao longo do caminho.</p><p>Onde falamos que o amor cura, mas que no pequeno momento que sequer tenhamos, ferimos uns aos outros. A busca pela tal liberdade que prometeram nos leva longe. Mas at&#233; agora n&#227;o sei  o que esperar dela. E j&#225; deixo claro, aqui n&#227;o trato sobre a n&#227;o monogamia &#233;tica. </p><p>&#8220;Eu sou de outro tempo, amor que &#233; pra sempre&#8221;</p><p>Vivo com essa m&#250;sica tatuada em meu cora&#231;&#227;o, mas ainda n&#227;o sei &#233; uma ben&#231;&#227;o ou maldi&#231;&#227;o. Porque aqui, nesta terra de c&#227;o, o prazer vale mais. E assim como a Duda Beat, eu n&#227;o sei falar dessas rela&#231;&#245;es.</p><p>Rela&#231;&#245;es que j&#225; come&#231;am com datas de t&#233;rmino j&#225; programadas, como uma obsolesc&#234;ncia programada. Mas eu n&#227;o me conformo com esse padr&#227;o que insistem em moldar em mim. Com o padr&#227;o que nos leva a uma sensa&#231;&#227;o de que nada dura, que as rela&#231;&#245;es e v&#237;nculos s&#227;o facilmente desfeitos. N&#227;o faz sentido.</p><p>Relacionamentos s&#227;o pol&#237;ticos.</p><p>Estamos na era que a perman&#234;ncia assusta. A constru&#231;&#227;o de uma intimidade duradoura &#233; um monstro de sete cabe&#231;as, pronto para devorar qualquer um que cruze com o seu caminho.</p><p>J&#225; &#233; hora de partir, sussurra a voz da imperman&#234;ncia que me assola quando estou de frente a qualquer lapso de relacionamento que me encontro. A perman&#234;ncia assusta, n&#227;o porque ela machuca, mas &#233; que nos ensinaram a lidar com ela assim. Permanecer, mesmo quando o medo do futuro incerto vem assolar quase que diariamente, como o bicho-pap&#227;o que via quando crian&#231;a, ainda &#233; meu ato di&#225;rio de coragem.</p><p>J&#225; &#233; hora de partir, insistimos em dizer quando qualquer tipo de fagulha surge em nossas rela&#231;&#245;es. Melhor abandonar o barco a ver o que &#233; que me assusta. Melhor partir, antes que o pior aconte&#231;a. Melhor beber dessa fonte barata de amor raso que me ofereceram, vai que essa seja a minha &#250;ltima dose. </p><p>J&#225; &#233; hora de partir, pois se despir fisicamente &#233; f&#225;cil, mas se mostrar vulner&#225;vel ao outro, quando eu tamb&#233;m me encontro no mesmo estado que ele me assusta. E essa vulnerabilidade n&#227;o combina com os filtros que uso. Ela vai de encontro &#224; tal da liberdade que me prometeram.</p><p>N&#227;o &#233; mais hora de partir, &#233; necess&#225;rio o momento de permanecer, mesmo que feridos e assustados.</p><p>Por aqui fico, em uma sociedade que foi pautada historicamente na escassez de afeto, esse sentimento &#8212; desafeto &#8212;  em mim permanece e se intensifica a cada quebra de expectativa que crio no outro. Mas vivo seguindo e confiando que o amor, para mim, &#233; v&#225;lido,  e que eu quero caber nele.</p><p>E eu deixo parra voc&#234; que leu at&#233; aqui essa pequena frase:</p><p>Comece a estender ra&#237;zes nos caminhos que voc&#234; acha que s&#227;o somente passagem. Meu desejo &#233; que um dia o amor nos ache e nunca mais nos largue.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Herético, sagrado e livre: quando eu parei de pedir perdão por existir]]></title><description><![CDATA[A Deusa das Bruxas me mostrou o caminho que me levou de volta a mim mesmo.]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/heretico-sagrado-e-livre-quando-eu</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/heretico-sagrado-e-livre-quando-eu</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Sun, 20 Jul 2025 16:12:23 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9508d08e-bb70-42ef-9a1b-5cec16fe46ba_1200x1464.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Desde que me entendo por gente, nunca me senti verdadeiramente parte de lugar nenhum. Sempre houve em mim um desalinho, uma percep&#231;&#227;o de erro, uma sensa&#231;&#227;o de n&#227;o pertencimento que, a cada dia que passasse, crescia em sil&#234;ncio. Cresci dentro de uma igreja crist&#227; extremamente r&#237;gida, cercado por regras, doutrinas e expectativas que me moldavam por fora, mas por dentro, algo gritava e me atormentava diariamente.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscreva agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?"><span>Subscreva agora</span></a></p><p>Mesmo sem entender exatamente o que era, eu sentia. Sabia que existia algo diferente em mim, uma fagulha que destoava daquele caminho tra&#231;ado para mim com tanta firmeza. Havia uma pequena semente plantada bem fundo no meu peito, uma semente que, com o tempo, come&#231;ou a se mexer, a germinar. Ela me desviava, ainda que discretamente, da rota esperada. Eu n&#227;o me encaixava, n&#227;o havia como. N&#227;o me adaptava &#224;s normas e obriga&#231;&#245;es que insistiam em me empurrar goela abaixo.</p><p>Dentro de mim j&#225; habitava a semente her&#233;tica. A semente desviante.</p><p>A semente viada.</p><p>Por mais que os anos passassem, por mais que eu crescesse dentro da institui&#231;&#227;o religiosa &#8212; e cresci t&#227;o r&#225;pido que despertava concorr&#234;ncia &#8212; a sensa&#231;&#227;o de sufocamento s&#243; aumentava. Fui subindo de posi&#231;&#227;o, galgando cargos com uma rapidez que surpreendia at&#233; os mais antigos. Quando percebi, eu j&#225; era professor da turma mais avan&#231;ada de teologia da igreja. Parecia uma conquista, e era para algu&#233;m, mas n&#227;o para mim. Mas a cada passo dado, o n&#243; na garganta se apertava ainda mais.</p><p>N&#227;o tinha como esconder aquele sentimento err&#225;tico que existia.</p><p>Jejuns iam, ora&#231;&#245;es vinham. Chorava quase todos os dias, tentando desesperadamente ouvir uma resposta, uma proposta de mudan&#231;a, uma barganha, ou qualquer outra coisa do tipo. Mas nada. Sil&#234;ncio. Deus n&#227;o me escutava, ou talvez eu n&#227;o conseguisse mais escutar Deus da forma como me ensinaram. Ou eu  estava me conectando com aquele que nunca iria me acolher da forma que eu era.</p><p>A culpa e o medo do inferno vinham todos os dias, como visitantes indesejados que se sentavam &#224; beira da minha cama antes que eu pudesse dormir. Eu ainda era uma crian&#231;a, mas j&#225; sabia o que era temer a pr&#243;pria exist&#234;ncia. J&#225; sabia que, do jeito que eu era, n&#227;o haveria salva&#231;&#227;o. Deus, aquele mesmo que me ensinaram a amar acima de qualquer coisa, n&#227;o poderia me amar de volta. Pelo menos, n&#227;o se eu fosse... <em>daquele jeito</em>.</p><p>O inferno j&#225; era uma realidade para mim. N&#227;o s&#243; o teol&#243;gico que acontece depois da morte. Era ali, no meu quarto, nas minhas noites, no meu corpo que tremia de ansiedade e p&#226;nico sem entender por qu&#234;. O inferno era viver todos os dias com a sensa&#231;&#227;o de que eu estava condenado por algo que eu sequer havia escolhido ser. O inferno se tornou viver na minha pele.</p><p>Lembro das vezes em que, escondido sob os len&#231;&#243;is, eu chorava em sil&#234;ncio para n&#227;o acordar ningu&#233;m. Meus olhos fechados apertavam as l&#225;grimas como se isso ajudasse, de alguma forma, a ora&#231;&#227;o a chegar mais r&#225;pido ao c&#233;u. Eu suplicava. Rogava a Deus para que aquela dor passasse. Pedia para que ele me curasse, me transformasse, me libertasse daquele peso que minha pr&#243;pria exist&#234;ncia me causava.</p><p>E, nos momentos mais desesperados, eu pedia que ele simplesmente me levasse.</p><p>"Se for para eu ser assim, ent&#227;o me leva. Me tira daqui. Me poupa disso. Me livra de mim."</p><p>Tirar minha pr&#243;pria vida n&#227;o era uma realidade para mim, nas diversas tentativas eu n&#227;o tive coragem. Ent&#227;o eu pedia.</p><p>Era um pedido genu&#237;no de algu&#233;m que n&#227;o via mais esperan&#231;a. Eu estava exausto de existir na contram&#227;o de tudo que me ensinaram. Estava me perdendo de mim a cada dia, um peda&#231;o de cada vez. E ningu&#233;m notava.</p><p>Eu me olhava no espelho e n&#227;o me reconhecia mais. N&#227;o sabia quem era aquela pessoa. Meus olhos estavam ali, mas sem brilho. Meu corpo estava ali, mas parecia oco. Eu apenas existia, e mesmo isso j&#225; do&#237;a demais.</p><p>N&#227;o havia espa&#231;o para mim. Nem na igreja, nem na fam&#237;lia, nem no mundo. Nem mesmo na minha pr&#243;pria exist&#234;ncia.</p><p>Eu me rejeitava.</p><p>Desde a minha adolesc&#234;ncia eu me perguntava constantemente: &#8220;Se Deus &#233; o criador de tudo, por que ele tinha me criado assim? Por que tinha que ser eu?&#8221; N&#227;o fazia sentido, na minha cabe&#231;a, um criador fazer uma obra, que antes mesmo de come&#231;ar, j&#225; sabia que n&#227;o lhe serviria. A sensa&#231;&#227;o de falta de compreens&#227;o  somente crescia a  cada dia que se passava. A depress&#227;o me circulando como uma fera preste a devorar a sua presa.</p><p>No fundo, algo em mim j&#225; sabia: eu estava tentando me calar, quando na verdade era hora de me ouvir.</p><p>E ent&#227;o eu a vi.</p><p>Reluzente e sedutora, com sua luz prateada e brilhante, sussurrando seus mist&#233;rios e del&#237;cias para mim.</p><p>Mesmo sem entender, fui seduzido por ela.</p><blockquote><p>&#8220;Voc&#234;s estar&#227;o livres da escravid&#227;o [&#8230;] Meu &#233; o &#234;xtase do esp&#237;rito&#8221;.</p></blockquote><p>Com todos os seus caprichos, ela me envolveu. E, pouco a pouco, me devolveu todos os meus sonhos.</p><p>Ali, eu encontrei o que sempre procurei:<br>O descanso e o prazer de ser quem eu era.<br>O ref&#250;gio para minha alma cansada, abatida de tanto se podar para caber nas expectativas, normas e regras que me foram impostas mesmo antes do meu nascimento.</p><p>Na Deusa M&#227;e eu me encontrei, e me encontro todos os dias.<br>Por isso, eu a canto. Todos os momentos.</p><p>Canto sobre a liberdade que ela me deu.<br>Canto pelo fardo que ela removeu.<br>Canto porque ela abriu meus olhos quando tinham me colocado uma venda.<br>Canto porque ela destruiu a cruz que colocaram sobre minhas costas, para que eu carregasse uma culpa que nunca foi minha.<br>Canto pelas del&#237;cias e pelos prazeres que, em mim, ela despertou.</p><p>No momento em que eu morri, nela eu renasci.<br>E pude, e posso, desbravar a vida com a certeza de que, por ela, sou assistido. E jamais desamparado.</p><p>Tamb&#233;m por seu consorte, cujos mist&#233;rios mergulhei, sigo aprendendo todos os dias.<br>No &#250;tero escuro, f&#233;rtil e &#250;mido da Deusa, assim como Ele posso renascer quantas vezes for preciso.</p><p>Olho para tr&#225;s e vejo as vers&#245;es de mim que morreram para que este &#8220;eu&#8221; estivesse vivo.<br>E imagino todas as pr&#243;ximas vers&#245;es que vir&#227;o, para que o melhor de mim possa nascer, e viver dignamente.</p><p>Sem repress&#227;o.<br>Sem culpa.<br>Sem pesar.</p><p>Vivendo dignamente com a vida que me liberta.</p><p>Integrado e com os p&#233;s firmes na terra que antes eu rejeitava, e o cora&#231;&#227;o aberto ao c&#233;u que agora me acolhe. Caminho n&#227;o mais curvado pelo peso da culpa, mas ereto com orgulho, sabendo que existir como sou j&#225; &#233;, em si, um ato t&#227;o sagrado quanto profano.</p><p>Cada passo que dou &#233; a manifesta&#231;&#227;o da bruxaria que habita em mim.<br>Cada gesto, uma oferenda &#224; Deusa.<br>Cada amor que cultivo, cada prazer que vivo, cada verdade que declaro &#233; feiti&#231;o.</p><p>Eu sou templo da Deusa Antiga.<br>Sou altar do Deus das Bruxas.<br>Sou fogo que n&#227;o se apaga.<br>O Senhor das Florestas escuras e a Deusa que nela tudo fenece habitam em mim.</p><p>Hoje, compreendo que n&#227;o era eu que precisava me adaptar a um mundo estreito,/ e que cagava regras era o mundo que precisa se expandir para me conter.</p><p>Porque hoje, eu mesmo me contenho. Me acolho. Me celebro.<br>Sou cria&#231;&#227;o divina, sim. <br>N&#227;o da divindade que exige sacrif&#237;cio para amar.<br>Sou filho da Deusa que dan&#231;a, que pulsa, que transborda.<br>Sou filho do Deus que sacrifica a si mesmo, como ato de devo&#231;&#227;o a sua Deusa.<br>Que me ensina os mist&#233;rios da ciclicidade que me foi roubada.<br>Sou filho da Terra, filho da Lua, amante do Mist&#233;rio.</p><p>E sigo.<br>Cantando, vivendo, sendo viado.<br>Transformando dor em for&#231;a, meu passado &#233; oferenda, e minha sombra adubo para  a minha luz.</p><p>Porque renascer, aprendi, n&#227;o &#233; negar quem fui.<br>&#201; honrar as mortes que precisei viver para, enfim, florescer.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Mateus! 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Afinal, morando no Nordeste brasileiro, n&#227;o vivencio o outono como uma esta&#231;&#227;o bem definida. As &#225;rvores ainda t&#234;m folhas, flores desabrocham, frutos amadurecem e outros ainda esperam seu tempo. Todo aquele ideal outonal que vemos em livros e filmes &#8212; de folhas secas caindo, temperaturas amenas e um ar de melancolia &#8212; simplesmente n&#227;o existe aqui. Mas ser&#225; que isso nos torna menos suscet&#237;veis ao outono?</p><p>Acredito que n&#227;o. O outono &#233; mais do que um fen&#244;meno clim&#225;tico; ele &#233; um estado de transi&#231;&#227;o, um espa&#231;o entre o que foi e o que ser&#225;. Uma ponte entre a intensidade do ver&#227;o e o recolhimento do inverno. Independentemente da geografia, todos n&#243;s passamos por outonos internos, momentos em que sentimos a necessidade de mudar, de abrir espa&#231;o para algo novo, de deixar ir o que j&#225; n&#227;o faz sentido.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cavaleiroentreoveu.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler O Substack de Mateus! 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J&#225; aqui, no Sul Global, vivemos um outono ariano &#8212; intenso, impetuoso. Um outono que dilacera tudo o que j&#225; n&#227;o cabe mais, que traz &#224; tona o que abafamos, for&#231;ando-nos, com certa viol&#234;ncia, a enxergar o que precisa ser cortado. Ele empunha a foice, preparando-nos para um novo ciclo, mais &#237;ntegros e conectados com n&#243;s mesmos.</p><p>As chuvas deste ano se tornaram mais imprevis&#237;veis. O sol se p&#245;e mais cedo, trazendo uma sensa&#231;&#227;o de aconchego, um convite para descansar de um ver&#227;o intenso, vivido no limite. A sobrecarga de luz e calor transbordou em excesso &#8212; uma caracter&#237;stica marcante do ver&#227;o, que tudo expande. Mas o outono chega para conter essa expans&#227;o, para nos lembrar que h&#225; um tempo para tudo, e que o descanso e o recolhimento tamb&#233;m fazem parte do ciclo da vida.</p><p>Aqui, para mim, o outono &#233; um convite &#224; retirada.</p><p>Uma retirada para dentro. Um chamado para mergulhar no mist&#233;rio que s&#243; uma semente conhece. O outono &#233; o pren&#250;ncio do inverno que se aproxima. Se a semente n&#227;o germinar agora, n&#227;o haver&#225; flores na primavera, nem frutos no ver&#227;o, e a colheita do pr&#243;ximo ano estar&#225; comprometida.</p><p>Mas como mergulhar no solo, como uma semente, em meio ao caos? A vida n&#227;o para &#8212; e n&#227;o esperar&#225; minha fase de semente. Somos constantemente pressionados a produzir, a performar, a estar sempre em movimento. N&#227;o h&#225; espa&#231;o para pausas no mundo acelerado em que vivemos. E, ainda assim, &#233; no sil&#234;ncio que a semente encontra for&#231;a para brotar.</p><p>O processo de renascimento me desafia a cada dia. A cada momento, deparo-me com um convite:</p><p><strong>"Conhece-te a ti mesmo."</strong></p><p>E s&#243; podemos nos conhecer quando paramos para deixar nascer. Deixar nascer o eu aut&#234;ntico, aquele que foi soterrado pela correria e pelo excesso do ver&#227;o.</p><p>Outonos internos n&#227;o acontecem apenas uma vez por ano. Eles surgem sempre que uma fase de nossa vida chega ao fim. Sempre que percebemos que algo precisa ser encerrado, que um ciclo precisa ser conclu&#237;do. E, assim como as folhas das &#225;rvores que caem sem hesita&#231;&#227;o, precisamos aprender a soltar. Soltar medos, expectativas, padr&#245;es que n&#227;o nos servem mais.</p><p>O outono nos ensina que h&#225; beleza no desapego. Que h&#225; for&#231;a na entrega. Que h&#225; vida naquilo que parece morte.</p><p>E que, no tempo certo, tudo floresce de novo.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!JlqL!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F03a1cc91-c941-456b-8d84-ad49206de65c_580x580.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!JlqL!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F03a1cc91-c941-456b-8d84-ad49206de65c_580x580.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!JlqL!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F03a1cc91-c941-456b-8d84-ad49206de65c_580x580.jpeg 848w, 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Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Tarot e vida: A solidão de uma vida LGBT+ representada no 5 de copas]]></title><description><![CDATA[Por que o abandono e a solid&#227;o se faz t&#227;o presente na vida dos LGBTQIA+?]]></description><link>https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/tarot-e-vida-a-solidao-de-uma-vida</link><guid isPermaLink="false">https://cavaleiroentreoveu.substack.com/p/tarot-e-vida-a-solidao-de-uma-vida</guid><dc:creator><![CDATA[Ícaros Argyrós]]></dc:creator><pubDate>Thu, 27 Feb 2025 15:11:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dXzE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ed42c8e-97bf-40b7-ad59-a7538fafeee3_1084x1599.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Para entender melhor as cartas de qualquer or&#225;culo, eu procuro me ver nelas, mas com o 5 de Copas, a conex&#227;o foi autom&#225;tica.</p><p>Ela me mostrou o que eu vivi e vivo por muito tempo da minha vida.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dXzE!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ed42c8e-97bf-40b7-ad59-a7538fafeee3_1084x1599.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dXzE!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ed42c8e-97bf-40b7-ad59-a7538fafeee3_1084x1599.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dXzE!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ed42c8e-97bf-40b7-ad59-a7538fafeee3_1084x1599.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dXzE!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ed42c8e-97bf-40b7-ad59-a7538fafeee3_1084x1599.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dXzE!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ed42c8e-97bf-40b7-ad59-a7538fafeee3_1084x1599.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!dXzE!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1ed42c8e-97bf-40b7-ad59-a7538fafeee3_1084x1599.jpeg" width="220" height="324.520295202952" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1ed42c8e-97bf-40b7-ad59-a7538fafeee3_1084x1599.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:false,&quot;imageSize&quot;:&quot;normal&quot;,&quot;height&quot;:1599,&quot;width&quot;:1084,&quot;resizeWidth&quot;:220,&quot;bytes&quot;:101811,&quot;alt&quot;:&quot;Carta cinco de copas do tar&#244; de Whaite. na imagem temos um home em p&#233; vestido com uma capa preta, sua postura &#233; de quem desistiu e abandonou, no ch&#227;o temos 5 ta&#231;as, tr&#234;s delas derramadas e duas em p&#233;.&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://mateusabdias.substack.com/i/158035116?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F82121181-f138-4705-8208-90f20784502d_1084x1599.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Carta cinco de copas do tar&#244; de Whaite. na imagem temos um home em p&#233; vestido com uma capa preta, sua postura &#233; de quem desistiu e abandonou, no ch&#227;o temos 5 ta&#231;as, tr&#234;s delas derramadas e duas em p&#233;." title="Carta cinco de copas do tar&#244; de Whaite. na imagem temos um home em p&#233; vestido com uma capa preta, sua postura &#233; 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Mesmo rodeado de pessoas, era inevit&#225;vel: estava cercado, mas sempre sozinho.</p><p>Repleto de medo e culpa, passei a carregar um peso que n&#227;o era meu. Durante toda a fase da minha descoberta, eu sempre estive sufocado por esse fardo. Mas, afinal, que culpa eu tinha? Al&#233;m de carregar o peso desse medo, que com o passar do tempo se tornou um velho conhecido meu, eu tinha que lidar com um perigo iminente: o abandono.</p><p>Passei minha adolesc&#234;ncia inteira sentindo a dor de um abandono sempre pr&#243;ximo. Uma dor latente que me rasgava o peito, atravessava o cora&#231;&#227;o como uma flechada. O perigo iminente se aproximava, transformando aquele sentimento em uma rea&#231;&#227;o nervosa profunda. Causava sensa&#231;&#245;es f&#237;sicas e psicol&#243;gicas &#8212; esse medo do abandono era algo palp&#225;vel. Eu o sentia na pele, nas entranhas. A sensa&#231;&#227;o era que, a qualquer momento, algu&#233;m desistiria de mim.</p><p>E sempre desistiam.</p><p>Por que o abandono sempre se fez presente na vida das pessoas LGBTQIA+? Mesmo eu fazendo todo o malabarismo poss&#237;vel para que gostassem de mim ou para que minha presen&#231;a, de alguma forma, se tornasse mais toler&#225;vel, nunca era o suficiente. N&#227;o importava o esfor&#231;o que eu empregasse na situa&#231;&#227;o. O sentimento, mesmo que indesejado, era sempre presente. Por mais que eu o disfar&#231;asse ou tentasse cur&#225;-lo com outras coisas, era em v&#227;o.</p><p>O sentimento era &#8212; e ainda &#233; &#8212; t&#227;o grande que eu sufocava as pessoas com aten&#231;&#227;o e afeto. Sempre que precisavam, eu estava l&#225;, prontamente dispon&#237;vel. Repare bem: quem demonstra muito &#233; porque carece daquilo. Todo excesso esconde uma falta. No meu caso, era um medo, um sentimento, um peso.</p><p>Inadequa&#231;&#227;o. Esse era o peso que eu carregava. Na verdade, essa sombra me segue at&#233; hoje. &#201; inevit&#225;vel. Por mais que eu tente fugir, ela est&#225; l&#225;, me raptando toda vez que tento me libertar. Todo esse sentimento me faz fazer mais: farei mais para n&#227;o ser abandonado, farei mais para me sentir aceito, farei mais para me sentir &#250;til. Farei mais, muito mais. Mais, mais, mais. Mesmo que isso me leve a viver em uma corda bamba, equilibrando o que sobrou para que nada mais caia. Fazer pelos outros, estar sempre para os outros.</p><p>Mas quem faz por mim?</p><p><em>Quando eu al&#231;ar o voo mais bonito da minha vida</em>, quem estar&#225; l&#225;?</p><p>Com todo esse abandono, a sensa&#231;&#227;o &#233; que todo mundo que me cerca &#233; vol&#225;til. Todas as minhas rela&#231;&#245;es se tornaram ef&#234;meras. Se duram por certo tempo, eu acabo. Prefiro exterminar qualquer coisa que possa vir a me abandonar futuramente.</p><p>Eu vivo sempre perto do fim, do limiar. Afinal, &#233; melhor n&#227;o ter nada do que ter hoje e, amanh&#227;, amanhecer com mais ta&#231;as derramadas. J&#225; que um dia n&#227;o vai mais ser, &#233; melhor n&#227;o ser nada. Afinal, sou como um rio com correntezas: se n&#227;o vingar, vou te arrastar para longe, sem rodeios.</p><p>Saber que sou feito de &#225;gua me permite entender que sempre tive que me moldar a toda situa&#231;&#227;o para caber, ser aceito e fugir da inadequa&#231;&#227;o. Mas, mesmo sendo feito de &#225;gua, impe&#231;o que as que j&#225; me rodeiam se derramem, escapem entre meus dedos. Isso &#233; sequela da minha inf&#226;ncia dolorida. Sigo, mesmo com toda essa solid&#227;o e medo do abandono, arrastando tudo que n&#227;o vinga &#8212; ou que me assusta.</p><p>Esse &#233; meu 5 de Copas.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0RAz!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3b7e06e6-9c0c-4fa9-8765-02d3257c60ed_736x1261.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!0RAz!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3b7e06e6-9c0c-4fa9-8765-02d3257c60ed_736x1261.jpeg 424w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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